Comer e beber a cidade: no Bom Retiro dos imigrantes

 

Como acontece em qualquer grande cidade, alguns bairros de São Paulo têm vida tão própria quanto os clichês que foram sendo incorporados a eles ao longo do tempo. O Bom Retiro, por exemplo, é tido até hoje como o bairro dos imigrantes. Batizado com o nome de uma das muitas chácaras que se localizavam na área no início do século XIX, estabeleceu-se entre a várzea do rio Tietê e a ferrovia inaugurada pelos ingleses em 1867, na Luz.

Nos idos de 1880, os operários encontravam ali cortiços e pensões baratas para morar, próximas das nascentes indústrias instaladas na região e nas adjacências. Os italianos, ao chegar em massa a São Paulo a partir dessa época, também foram se alojar no Bom Retiro. Depois deles, fizeram o mesmo os judeus do Leste Europeu e de Israel. Entre esses últimos estava Lina Levi, nascida em 1927 na Bulgária.

Antes de se mudar para o Brasil, Lina, o marido e os filhos, fugidos da Segunda Guerra, se estabeleceram em Tel Aviv com um pequeno comércio em que vendiam sorvete, queijo, iogurte. Decidiram que era hora de deixar o país em 1973, quando a guerra de Yom Kippur se anunciava. Amigos e primos que já moravam na capital paulista incentivaram a vinda da família Levi. “Quando nós chegamos, era diferente São Paulo! Não era como agora”, lembra Lina, em depoimento ao programa Memórias do Comércio, do Museu da Pessoa.

Instalada em um apartamento no Bom Retiro, Lina sentiu dificuldades com o idioma, não com o lugar. “Era tudo de judeus lá. […] No começo, você escutava na rua só o hebraico, mais do que português.” Aprendeu a falar a nova língua com os filhos, já matriculados em escolas locais, e na feira. “Eu mostrava, e ela me falava que é vargem. ‘Ah, vargem‘. Aí, aprendi que vargem era vargem. A batata é batata.” As aulas definitivas vieram em 1975, quando a família inaugurou a Casa Búlgara, loja de doces e salgados famosa pelas burekas, rosquinhas folhadas tradicionais de seu país de origem. “Quando abrimos a loja, foi outra coisa porque, aí, já tinha empregados e comecei a falar: ‘quer, não quer?’, e começou a chegar o pessoal.”

A Casa Búlgara nunca saiu do Bom Retiro. É uma referência em burekas e em memória judaica. Na lida diária entre a cozinha e o balcão, Lina testemunha as mudanças do bairro, sempre imigrante, sempre em transformação. “Todo mundo se conhecia, depois começou a mudar… No começo, a gente não sentia muito, porque ficava dentro da loja. Começaram a chegar os coreanos, devagar, devagar. Agora, são bolivianos”, diz ela, querendo acreditar que as mudanças são bem-vindas. “Mas eles fizeram muito bem pro bairro.”

Complemente a leitura com o primeiro vídeo da coleção:

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