Galos no fogão a lenha

As rinhas ou lutas de galos já foram tidas como um esporte e eram mais comuns do que se pode imaginar hoje. Sem fazer apologia a elas, o gaúcho Rodrigo Agra Balbueno, nascido em 1965 e hoje morador de Brasília, lembra-se do tempo em que o destino das aves “competidoras” era quase sempre a panela de ferro. Do fogão a lenha, a carne lentamente cozida saía direto para o prato, para acompanhar a massa fresca preparada com os “mesmos ovos que a providência poderia haver convertido em um grande campeão”.

O galo de rinha com massa fresca é a madeleine de Rodrigo, como ele mesmo afirma. Assim como o delicado bolinho que ajudou o francês Marcel Proust a voltar para a infância, essa nada delicada receita o faz retornar ao tempo em que ele dividia a grande mesa com os amigos para bater cotovelos na hora de prová-la. Como ele, falamos muito das madeleines que todo mundo guarda na memória (e no paladar) na Coleção Sabores de Infância, a primeira criada pelo Lembraria para o Museu da Pessoa.

“Em nosso paladar está a chave para uma viagem no tempo, e, em cada um de nós, há uma ‘madeleine’ capaz de nos transportar instantaneamente a lugares distantes… e aos maravilhosos paradoxos dessa relação, pois quando se trata de comida, a sofisticação e o requinte não são atributos inseparáveis do luxo e do refinamento. Quando galos de rinha entram na conversa tudo fica ainda mais fantástico.

Em tempos anteriores ao ecologicamente correto, a temporada de rinhas era precedida por uma longa preparação; dos ovos aos grandes campeões, uma rigorosa seleção era necessária. Como ocorre em qualquer esporte, os aspirantes menos hábeis vão sendo instados a procurar outro rumo, com a diferença de que, quando se trata de galos de rinha, seu nobre destino pode ser a panela, e, nesse caso, um galo com massa que coroava de uma forma bastante peculiar uma carreira fadada ao fracasso.

Sacrificados logo cedo, os galos iam pra panela de ferro no fogão a lenha, fritos em gordura animal e temperados com as ervas colhidas na horta, para longas horas de cozimento. A massa era preparada com os mesmos ovos que a providência poderia haver convertido em um grande campeão ou no acompanhamento para a massa; mistérios do destino aviário.

À tarde, o cheiro tomava conta do espaço, enquanto os longos fios amarelos de massa descansavam sobre a mesa salpicada de farinha, e cedo da noite já estava tudo pronto. A carne escura e densa envolta em um molho espesso que se abraçava aos fios amarelos da massa; um sabor único, guardado para sempre na memória. Em um galpão de madeira sem forro, ao lado do ‘tambor’ no qual se decidia o destino das aves belicosas, os amigos dividiam uma grande mesa em uma refeição inesquecível. No ambiente o mais simples possível, o luxo estava na generosa acolhida, no encanto das coisas feitas com amor e dedicação, no prazer maior de dividir a comida com aqueles que amamos.”

Este depoimento deu origem a um verbete em O Dicionário das Comidas Impossíveis, que surge das respostas ao questionário Fatias de Memória.
Clique aqui para contar sua história e nos ajudar a preencher esse relicário.

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