Origens embrulhadas em folha de uva

A comida é capaz de aproximar pessoas que não conseguem se falar de outro jeito. Encontrei no Twitter o relato de uma moça norte-americana chamada Devi Lockwood. Foi escrito para o canal online da NPR (uma rádio pública norte-americana sediada em Washington). No texto, Devi conta como aprendeu a fazer charutinho de folha de uva.

Devi é poeta, ciclista e ativista de meio ambiente. Em um de seus projetos, já viajou o mundo, de barco e bicicleta, só para perguntar às pessoas qual o impacto das mudanças climáticas em suas vidas. No depoimento, porém, ela fala de uma descoberta sobre sua própria herança familiar. Algo que se descortinou por meio da comida.

Filha de uma americana e um sírio-armênio cuja família imigrou para os Estados Unidos, Devi foi levada de casa pela mãe, aos 4 anos de idade, quando a mulher resolveu enfim abandonar o marido violento (pai biológico da guria). Nesse rompimento se perderam, de certa forma, as referências que a garota poderia ter das tradições culinárias sírias e armênias. A menina cresce na cultura alimentar americana.

Um dia, já adolescente, Devi não sabe de onde vem (ou sabe) um desejo crescente por homus, pão sírio, azeitona. Mais tarde, já na faculdade, reencontra por acaso uma prima por parte de pai que a leva para rever a avó paterna. A avó que ela não encontrava desde os 3 anos. Devi não fala armênio. A avó não fala inglês. Os encontros ocorrem sempre à mesa, e a moça volta pra casa carregada de quentinhas, marmitas que a avó lhe entregava. Ela, que até então evitava com todas as forças cozinhar, vê a cozinha (que a fazia lembrar a agressividade do pai) ser convertida em refúgio de afeto. Toda vez que envolve o arroz em folha de uva, Devi resgata um pedaço de sua origem sírio-armênia e se aproxima de novo da Nana.

[…]

Para a surpresa de minha mãe, quando eu estava no ensino médio, eu desenvolvi uma paixão pela comida armênia. Um dia, na mercearia, eu perguntei se poderia comprar um vidro de azeitonas. Minha mãe não suporta azeitonas, mas ela me deixou levar. Depois dessa pequena revelação sobre a diferença entre nossos gostos, minha mãe começou a trazer para casa coisas diferentes que ela achava que eu poderia gostar – pão sírio mergulhado em homus com um monte de alho, labneh [um iogurte grego] servido com hortelã, pudim de arroz polvilhado com canela, e dolmades, um prato feito de folhas de uva enroladas e recheadas com arroz picante. Embora eu não tivesse provado nenhuma dessas receitas quando era criança, eu não conseguia parar de comê-las. E eu amava comer esses pratos saborosos com as minhas mãos – era uma delícia lamber os dedos.

[…]

Mesmo depois de quarenta anos vivendo nos Estados Unidos, minha avó não fala muito inglês. E eu não sei sequer uma palavra em armênio. Quando Nana entrou no quarto, ela me abraçou, segurou minhas mãos e não me deixava ir embora. Ela chorou sentada ao meu lado, no sofá. […] Minha avó me mandou de volta para a escola com a mochila cheia de comidas que ela mesma fez: queijo salgado, tabule e mohamarra (um molho vermelho à base de nozes), mais twisted cookies [cookies trançadinhos] e muitos pepinos e tomates de seu quintal. A comida se tornou o meio que ela encontrou para expressar afeição por mim, e eu expressei minha gratidão devorando tudo o que ela me oferecia. Eu queria “comer” meu caminho de volta em direção ao meu patrimônio. Nós começamos a nos comunicar por meio da comida.

[…]

Em uma tarde de outono, eu decidi fazer uma aula de cozinha com ela. Eu fui de bicicleta da universidade até a casa de Nana, e ela gastou umas boas horas me ensinando a fazer folhas de uva recheadas.

Nana não media nada. Ela enrolava suas dolmades com folhas retiradas da parreira que cobre sua varanda e que cresceu a partir das sementes que chegaram com ela do navio que partiu da Síria no começo dos anos 1970. Meu primo recém-casado, que fala armênio fluentemente, ficou ali durante a aula para traduzir e transcrever e dar palpites sobre as medidas. Ela me mandou a receita por e-mail algumas semanas mais tarde. E eu carreguei a receita comigo para todo lugar. Quando eu preparo dolmades, eu as faço com as folhas mantidas em vidro com salmoura no mercado, mas um dia eu espero ter minha própria parreira e meu próprio jardim.

[…]

Eu sinto falta dela e de nosso tempo juntas, mas eu me agarrei à tradição de fazer dolmades. Eu não posso escolher a situação de minha família, mas eu posso escolher como eu posso honrar essas tradições culinárias.

Todas as vezes que eu embrulho uma folha de uva com um montinho de arroz picante, eu recupero algum aspecto da minha “síria-armenidade”. Ao fazer dolmades, eu transformo a cozinha de um ambiente de violência para um ambiente de refúgio.

 

2 comentários Adicione o seu

  1. Lêda Tavares da Rocha disse:

    Faço viagens de volta às minhas raízes por meio desse legado: pratos, temperos, receitas, sabores, aromas, segredos de cozinha… que vêm sendo passados de uma geração à outra. Isto é valioso demais! Uma riqueza que merece ser resgatada, honrada, como bem mostra Devi Lockwood em suas “Origens embrulhadas em folha de uva.” Prazer enorme em conhecer esta página com tantas histórias, relatos e lembranças que falam de valores atemporais. Agradecida! Assim é que me sinto.

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    1. Lêda, obrigada pela visita e pela generosidade de nos enviar seu comentário. Também nos sentimos agradecidas. É importante saber que dessas ondas (que se formam a partir das histórias) algumas tenham tocado por aí. Um abraço das “Vivianes”, do Lembraria.

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