“A mesa narra o mundo”

Sábado, na livraria, fui buscar o presente da amiga que estava de aniversário. Queria também me jogar na serendipidade típica de onde o acaso encontra seu lugar. Isso me animou, ainda que eu me movesse com alguma dificuldade. Estava pesada. Tinha dormido pouco, almoçado muito, bebido vinho à luz do sol e o sono me puxava para as poltronas. Uma delas era bem mimosa. Tinha cor de tangerina, mexerica, clementina, bergamota, laranja-cravo. Ficava mais ou menos perto de outra verde-limão em que um velho japonês dormia sossegado. Tive inveja dele. Pisquei devagar.

Foi então que esbarrei no novo romance que eu queria muito. Peguei.  Encontrei também Histórias da Mesa, de Massimo Montanari, lançado recentemente no Brasil pela Estação Liberdade. Massimo Montanari é professor de história medieval na Universidade de Bolonha. Estudioso de assuntos da comida, é co-autor de História da Alimentação, aquele livro vermelho, grande e importante. Tive inveja dele. E vontade de abrir o azul.

Histórias da Mesa, Massimo Montanari (Estação Liberdade)
Prólogo de Histórias da Mesa (Massimo Montanari, Estação Liberdade, 230 páginas): comida alimenta e bebida mata a sede, mas comida e bebida são muitas outras coisas também

Passei a mão pelas páginas em papel off-white. Secas. Talvez a folha áspera seja ideal para derramar umas palavras suculentas (mal comparando, o pólen soft do outro livro, o romance agudo, direto, na vertigem das férias de verão de uma mulher perturbada por muitas verdades, é lisinho e macio, ajuda a atravessar aquela história complicada). Vai ver é isso.

Pois bem: no prólogo do livro de Montanari, o seco, encontrei o trecho que destaquei abaixo. Na hora mandei para a Vivi Aguiar. Pensei com uma mistura de satisfação, alívio e falta de vergonha que ele, o trecho, explica em parte as decisões do autor e explica em parte também nossos gestos na navegação do Lembraria, sabe? Olha só:

A comida alimenta e a bebida mata a sede, mas comidas e bebidas são muito outras coisas também. São formas de explicar pertenças, identidades, relações. São instrumentos de socialidade e de comunicação. É por isso que toda narrativa sobre o alimento e a mesa possui uma densidade especial, uma trama de perspectivas que a enriquece de conteúdos e significados. Pois narram-se coisas que, por sua vez, narram. As narrativas da mesa têm tanto a dizer porque é a própria mesa que narra. Ela narra a fome e as maneiras como o homem procurou transformá-la em ocasião de prazer. Narra a economia, a política, as relações sociais. Narra os paradigmas intelectuais, filosóficos, religiosos de uma sociedade. A mesa narra o mundo.

São histórias da mesa, as do livro de Montanari. Crônicas, anedotas, relatos sobre escritos antigos – a maior parte trazida daquele tempo que é da especialidade do autor, a Idade Média. Textos que  a gente precisa, como ele diz, “escavar nas entrelinhas”, interrogar. Esse é um jogo das palavras de comer (não é o único). Um jogo bom.

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