O sorriso da mãe

Uma infinidade de conhecimentos é transmitida pela mãe que ensina o filho a cozinhar. O moço, por sua vez, busca nessa aula particular algo que vai além de acertar o cozimento do feijão e fazer o ovo frito mais que perfeito. Ao pedir para aprender, ele diz (sem dizer) que se importa (e que precisa). O pedido de ajuda é um gesto de  amor?

Paulista de Guaíra, Wilson conta que fez cursinho em São Paulo e depois estudou em Campinas. “Atualmente, moro em Anápolis (GO), onde trabalho como docente de ensino superior na Universidade Estadual de Goiás (pelo menos é o que está escrito no meu crachá)”. O que está escrito no depoimento dele você lê abaixo.

Meu nome é Wilson Sueoka. De vez em quando, brinco dizendo que sou feito com 100% de matéria-prima nacional e knowhow 100% importado (meus pais eram japoneses).

Os japoneses não são muito de demonstrar afeto ou amor, mas são muito atentos com as necessidades básicas dos filhos, pelo menos em casa nunca faltou abrigo, comida, vestuário e educação. Brinquedos? Em casa nós fazíamos os nossos brinquedos com a fruta verde do bucheiro (que, com alguns galhos estrategicamente enfiados, viravam vacas, cavalos etc.) ou com latas de óleo ou de sardinha (o que deixava a minha mãe louca da vida pelos “dentes” que fazíamos nas facas de cozinha para converter as latas em caminhões).

Bom, enquanto estive em casa eu não tinha preocupação em cozinhar e a vida seguia seu curso até o momento em que eu tive que morar em uma república a trezentos quilômetros de casa para me graduar em Química. Enquanto eu estava no primário, minha mãe me ajudava nas lições de casa, mas no secundário ela não podia ajudar pois ela própria só tinha o primário. Tal situação deixava a minha mãe chateada com a rotina de lavar, cozinhar e costurar. Assim sendo, a primeira coisa que fiz ao chegar em casa naquele tempo foi pedir para minha mãe que me ensinasse a fazer arroz, feijão, fritar ovo, fazer bife. O que ainda me deixa emocionado foi ver o sorriso estampado na face da mãe ensinando algo que ela dominava com autoridade e que assim estava transmitindo conhecimentos ao filho mais novo (somos duas irmãs e dois irmãos). E mesmo com o curso intensivo de cozinha, eu ainda telefonava, a cobrar, é lógico, para pedir receitas ou esclarecimentos sobre o cozinhar e notava o tom de animação na voz dela. Acho que é isso…

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Este depoimento deu origem a um verbete em O dicionário das comidas impossíveis, que surge das respostas ao questionário Fatias de memória.
Clique aqui para contar sua história e nos ajudar a preencher esse relicário.

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