As madeleines de Proust (e de todo mundo)

“Ela então mandou buscar um desses biscoitos curtos e rechonchudos chamados madeleines, que parecem ter sido moldados na valva estriada de uma concha de São Tiago. E logo, maquinalmente, acabrunhado pelo dia tristonho e a perspectiva de um dia seguinte sombrio, levei à boca uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madeleine. Mas no mesmo instante em que esse gole, misturado com os farelos do biscoito, tocou meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem a noção de sua causa. Rapidamente se me tornaram indiferentes às vicissitudes da minha vida, inofensivos os seus desastres, ilusória a sua brevidade, da mesma forma como opera o amor, enchendo-me de uma essência preciosa; ou, antes, essa essência não estava em mim, ela era eu. Já não me sentia medíocre, contingente, mortal. De onde poderia ter vindo essa alegria poderosa? Sentia que estava ligada ao gosto do chá e do biscoito, mas ultrapassava-o infinitivamente, não deveria ser da mesma espécie.

[…]

E de súbito a lembrança me apareceu. Aquele gosto era o do pedacinho de madeleine que minha tia Léonie me dava aos domingos pela manhã em Combray (porque nesse dia eu não saía antes da hora da missa), quando ia lhe dar bom-dia no seu quarto, depois de mergulhá-lo em sua infusão de chá ou de tília. A vista do pequeno biscoito não me recordara coisa alguma antes que o tivesse provado; talvez porque, tendo-o visto desde então, sem comer, nas prateleiras das confeitarias, sua imagem havia deixado aqueles dias de Combray para se ligar a outros mais recentes; talvez porque, dessas lembranças abandonadas há tanto fora da memória, nada sobrevivesse, tudo se houvesse desagregado; as formas – e também a da pequena conchinha da confeitaria, tão gordamente sensual sob as suas estrias severas e devotas – tenham sido abolidas, ou adormentadas, haviam perdido a força de expansão que lhes teria permitido alcançar a consciência. Mas, quando nada subsistisse de um passado antigo, depois da morte dos seres, depois da destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis porém mais vivazes, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, o aroma e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, chamando-se, ouvindo, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, levando sem se submeterem, sobre suas gotículas quase impalpáveis, o imenso edifício das recordações.”

Quando levou à boca um gole de chá com as migalhas de uma rechonchuda madeleine, Marcel Proust sentiu-se transportado, sem pedir e sem querer, para seus tempos de menino em Combray, na França. Não é preciso ter lido o primeiro volume da extensa obra Em busca do tempo perdido (o trecho transcrito acima é da edição de 2016, da Nova Fronteira), escrita ao longo da década de 1910, para conhecer a célebre história dos bolinhos franceses que ficaram, então, conhecidos como “madeleines de Proust”. Mencionado com frequência em textos e vídeos que esbarram na memória e no paladar, o episódio virou um clássico talvez mais forte e mais famoso do que a própria receita.

Na época em que Proust transformou sua profunda reflexão sobre a memória em romance, o tema estava, digamos, na moda – vale anotar que, dos sete tomos que compõem a obra proustiana, apenas o primeiro, O caminho de Swann, inclui excertos considerados autobiográficos. E é nele que está contida a epifania das madeleines. Voltando ao contexto, desde o fim do século XIX, as mudanças do cotidiano, vindas sobretudo com o êxodo que fez inchar os centros urbanos e esvaziar os antigos núcleos rurais, passaram a trazer novas preocupações às diversas ciências. O esquecimento das tradições levou, consequentemente, à crescente atenção com a memória. Bergson começou a tratar dela na filosofia; Freud, na psicologia; Proust, na literatura.

É isso o que afirma o historiador francês Pierre Nora, em seu também importante trabalho Entre memória e história – a problemática dos lugares, originalmente publicado em Paris, em 1984.

“Não é no fim do século passado, quando se sentem os abalos decisivos dos equilíbrios tradicionais, particularmente o desabamento do mundo rural, que a memória faz sua aparição no centro da reflexão filosófica, com Bergson, no centro da personalidade psíquica, com Freud, no centro da literatura bibliográfica, com Proust? A violação do que foi, para nós, a própria imagem da memória encarnada e a brusca emergência da memória no coração das identidades individuais são como as duas faces da mesma cisão, o começo do processo que explode hoje. Não devemos efetivamente a Freud e a Proust os dois lugares da memória íntimos e ao mesmo tempo universais que são a cena primitiva e a célebre pequena madeleine?“, diz Nora.

Proust acabou criando com a história das madeleines o conceito de “memória involuntária”, assunto complexo, já discutido em diversas dissertações e teses de todo o mundo. Textos de blogs, vídeos e livros de culinária também têm se apropriado dos bolinhos proustianos para fins mais leves: tocar a saudade da infância própria por meio da memória terceirizada do escritor francês – e da reprodução da receita que ele eternizou.

O lindo site e canal do YouTube Le Plat du Jour, da amiga Uiara Araújo, é um dos que já se inspiraram pelas madeleines. Além de ensinar a receita passo a passo, Uiara mostra no vídeo a reprodução do quarto de Marcel Proust no Museu Carnavalet, em Paris.

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