O frango da saudade refogada no açafrão

Dalva Estela de Azevedo tem 37 anos. Ela cresceu no bairro paulistano de Cidade Patriarca e, muito antes de se mudar para Joanesburgo, viveu ali junto de sua numerosa família. Depois de alguns dias indecisa sobre a memória que iria compartilhar no Fatias, foi preparando um almoço que a ideia surgiu. Era 23 de maio de 2016, uma segunda-feira em todo lugar do mundo. Na Bahia, na Cidade Patriarca e na África do Sul. Dalva estava com saudade.

Comecei a preencher o formulário da pesquisa na semana passada, mas ainda estava indecisa sobre a memória que escolheria. Pensei em descrever a experiência de almoçar em um restaurante duas estrelas Michelin em Viena, onde experimentei maravilhas e, estando eu apaixonada, parecia-me tudo mais saboroso. Mas ainda não era essa a fatia, desisti do formulário e aguardei a certeza chegar até mim.

Foi então que ao fazer almoço na segunda-feira (23/5), me sobreveio a reminiscência incontestável e digna de vossa pesquisa.

Tal memória se refere ao frango refogado no açafrão que preparo quando tenho muita saudade das minhas queridas mamãe (75 anos) e avó (96 anos). O açafrão que utilizo aqui do outro lado do Atlântico veio da Chapada Diamantina, Bahia, onde minha avó mora até hoje, numa vila chamada Ouro Verde. A minha mãe me ensinou a fazer o frango, que por sua vez aprendeu com minha avó. O aroma que preenche a casa quando adiciono o açafrão ao alho e cebola refogados, acrescido de um pouquinho de vinagre é algo que me transporta para a cozinha da minha mãe, de onde sai a melhor comida que possa existir para mim. Faz-me recordar também da casa da minha avó, principalmente da que ela morava anteriormente, em um sítio, do fogão a lenha, da comida com gosto de comida de verdade e da paisagem montanhosa que de lá se avistava.

Este é o método ensinado pela minha mãe: pedaços de frango são, em primeiro lugar, escaldados, segundo instrução da minha avó: “frango tem que ser escaldado senão não presta”. Na sequência, pele e gordura são retiradas. Numa panela limpa, refogar cebola, alho, adicionar o açafrão, vinagre e o frango. Deixar refogar um pouco. Colocar massa de tomate e água fervente que cubra todo o frango. Depois é só cozinhar por muito tempo no fogo baixo.

Ao preparar esta receita, muitos elogios recebo. Entretanto, o frango com açafrão da minha mãe será sempre o mais gostoso do mundo. Faz-me recordar dos almoços de domingo com a minha enorme família reunida na casa da minha mãe, para saborear o delicioso frango ao açafrão sobre uma montanha de espaguete.

 

***

 

Este depoimento deu origem a um verbete em O dicionário das comidas impossíveis, que surge das respostas ao questionário Fatias de memória.
Clique aqui para contar sua história e nos ajudar a preencher esse relicário.

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