O copo americano não é americano – e talvez nem seja “só” brasileiro

 

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A reportagem do Russia Beyond The Headlines sobre o soviet glass

Outro dia, uma amiga me enviou uma curiosa reportagem publicada pelo site Russia Beyond The Headlines sobre o “soviet glass”, o copo soviético, que é a cara do “nosso” popular copo americano. Começava assim o texto:

“11 de setembro é o aniversário do onipresente, mas humilde copo soviético. O robusto, volumoso e conveniente item do dia a dia tornou-se um símbolo da era soviética, e era popular tanto entre donas de casa quanto entre alcoólatras. Apesar de vir sendo substituído por copos mais elegantes, ele ainda está em uso.”

Achei intrigante: o copo que sempre conhecemos como americano, apesar de reconhecermos ser brasileiro, teria sido inventado, afinal, pelos russos da antiga União Soviética? Segundo a história contada pelo site, pode ser. Sem fazer referência ao irmão (gêmeo) brasileiro, o texto afirma que o pioneiro desses copos foi criado há 73 anos, em 11 de setembro de 1943, por uma fábrica de Gus-Khrustalny, cidade russa tida como uma das mais tradicionais na produção de objetos de vidro e cristal do país.

O copo teria sido, então, desenvolvido pela artista russa Vera Mukhina, que havia ficado famosa anos antes, em 1937, ao esculpir o monumento Operário e Camponesa de Kolkhoz, que representa um casal de trabalhadores empunhando em direção ao céu o martelo e a foice – a vistosa peça viraria um conhecido símbolo socialista. Ainda segundo a reportagem, Mukhina não teria idealizado o copo como uma criação artística: seu formato e seu tamanho parecem ter sido planejados para que ele coubesse nas máquinas de lavar louça recém-lançadas na Rússia dos anos 1940.

O grosso vidro facetado, idêntico ao da nossa versão, tinha uma função prática: garantir a firmeza do copo, evitando que quebrasse com facilidade. Era mais ou menos nessa época, aliás, que alguns países europeus, como a Inglaterra, se empenhavam em se reerguer durante e após a Segunda Guerra por meio de medidas oficiais que previam a simplificação – e o consequente barateamento – de objetos de consumo, a exemplo de móveis e roupas.

Não é que exista alguma relação clara entre esse movimento britânico, do chamado Utility Scheme, e o copo soviético – e, talvez, a produção deste último tenha sido muito mais motivada pela própria concepção funcional da socialista União Soviética. Mesmo assim, é curioso pensar que, nesses anos 1940, várias regiões do mundo tivessem a preocupação de fabricar artigos mais simples, mais duráveis e sobretudo mais em conta, ainda que “esculpidos” por uma artista de renome, como Mukhina.

De qualquer maneira, o copo de vidro de linhas singelas entrou com tudo no cotidiano soviético. Além de servir a água e o leite de todo dia, em casa, nas escolas, nos cafés e até em bebedouros públicos (de acordo com o texto russo, era comum usar o copo para beber e, em seguida, retorná-lo ao lugar de origem para que outro sedento passante pudesse fazer o mesmo, no mesmo recipiente), o copo soviético virou recipiente oficial para dois outros tipos de conteúdo: vodca, e farinha de trigo, açúcar ou qualquer ingrediente necessário para receitas doces e salgadas – o copo da URSS tornou-se medida-padrão indispensável aos modos de preparo descritos nos livros de culinária locais.

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Anúncio de copo americano (imitação da famosa marca Nadir Figueiredo) da loja Sears, no jornal carioca Diário de Notícias, em 1 de maio de 1960

No Brasil, em terras tão distantes da Rússia em todos os sentidos, um parente próximo do copo soviético teve história muito semelhante. Começou a ser fabricado também na década de 1940, mais especificamente em 1948, por uma fábrica paulistana fundada e comandada por Nadir Figueiredo, um empresário que não era artista, mas estava atento à época, a ponto de criar e colocar no mercado um copo de vidro simples, praticamente inquebrável e barato que, logo mais, seria parte do dia a dia brasileiro.

Aqui, o copo ganhou o sobrenome “americano”, não por causa da procedência, mas, segundo o que oficialmente conta a própria empresa, por ter sido inspirado em similares então produzidos nos Estados Unidos. A Coca-Cola, os filmes hollywoodianos e uma porção de modismos americanos passavam a ser importados de lá para cá nesse momento pós-Segunda Guerra; não é de estranhar, portanto, que o copo tenha sido um deles, apesar de existir, na mesmíssima época, um aparentado muito parecido em um lugar que, ironicamente, seria arquirrival dos Estados Unidos pelas longas quatro décadas seguintes.

Independentemente do que levou à sua origem, o copo americano-brasileiro ganhou funções também parecidas com as que o soviético adquiriu na Rússia. Embora nunca tenha sido visto em bebedouros públicos,  foi – e continua sendo – item praticamente integrante (e retornável, é claro) de muitos filtros de barro. Seus 190 mililitros servem para transportar água e café com leite e também para outros constantes tipos de conteúdo: cachaça, cerveja de garrafa e farinha de trigo, açúcar e qualquer ingrediente necessário para receitas doces ou salgadas – o copo americano tornou-se medida-padrão indispensável também aos livros de culinária nacionais.

Há, contudo, um ponto que parece diferenciar o soviético do “nosso”: sua trajetória até o presente. A reportagem do site Russia Beyond The Headlines diz que “na Rússia pós-soviética, o copo de vidro não é mais tão popular: existem outros, e tecnologias mais sutis para fazer copos resistentes. Agora, seria impossível encontrar o copo em uma loja qualquer, em escolas ou hospitais”. Ao que parece, o objeto só permanece frequente no serviço dos trens russos, embora já tenha sido tema de eventos realizados especialmente em sua memória.

No Brasil, o copo americano não só permanece sendo encontrado em qualquer lugar, das mesas de boteco aos armários da cozinha de casa, como virou símbolo do design, veja só, nacional. Em 2009, a mostra Destination: Brazil, organizada pela loja do Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, reuniu mais de setenta produtos que representavam o estilo de vida brasileiro. Entre eles estava, é claro, o copo americano Nadir Figueiredo, vendido a 3 dólares cada um.

As ondas gourmetizantes de culto à memória afetiva e ao retorno à “casa da avó” (ou aos botequins de antigamente), que parecem marcar culturalmente esse início de século, também foram favoráveis à Nadir Figueiredo, a marca que detém o registro do copo americano. Alçado à categoria de “o copo oficial do Brasil”, o “nosso” singelo copinho virou item de desejo ao ganhar cores modernosas e aparecer nas prateleiras da famosa loja Tok Stok, em coleção criada em parceria com a própria Nadir Figueiredo. Esta, não por acaso, ainda aproveitou o momento para abrir em São Paulo, em dezembro de 2015, sua primeira loja oficial, com destaque para seu produto mais popular.

A reportagem do site Russia Beyond The Headlines termina dizendo que…

“No século XXI, o copo soviético pode parecer um anacronismo. Mesmo assim, permanece como uma peça utilitária que é sempre associada à Russia. ‘Na arqueologia da vida russa, ao se vasculhar camada por camada, nós sempre iremos retornar ao copo de vidro’, afirmou o escritor contemporâneo Viktor Yerofeyev. ‘Esta é nossa arqueologia, ou melhor, nossa matriz’.”

O texto que escrevo e que você lê agora, por sua vez, termina dizendo que, apesar das semelhanças, das disparidades e de qualquer desnecessária polêmica sobre sua imaginária “verdadeira origem”, o copo americano é nosso: seu significado e seu valor, de forma natural ou propagandística, foram construídos no dia a dia do café com leite na padaria, da cachaça no bar, da groselha com leite da escolinha que já não existe, da água fresca do filtro ou da moringa de barro. É de vidro grosso e resistente e guarda a memória do tempo em que o costume era “entornar a vida” de um jeito simples e aos poucos, 190 mililitros de cada vez.

2 comentários Adicione o seu

  1. serendipity disse:

    E em Beagá, esse copo americano é tb conhecido como copo lagoinha… Lagoinha foi um bairro boémio de BH (ainda é de certa forma), hoje, grande parte dele cedeu espaço a viadutos que levam do centro a Pampulha ou a Cidade Nova.

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    1. Verdade 🙂 Obrigada por lembrar, Carol!

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