O arroz com suã que alimentava meio mundo

Atelobrobio, escreve Regina Pereira. Uma palavra que pede um espelho. Oi, responde alguém que se pensa borboleta, grande coisa, e começa a ler a carta. Mineira de Juruaia, nascida em 1956, Regina cresceu na Vila Albertina, zona norte de São Paulo. Ela, que carrega desde sempre uma casa de Minas dentro de si, escolheu pintar a imagem de um tempo em que o prato de ágata coberto com pano de saco alvejado “ia e vinha de casa em casa retribuindo gentilezas culinárias”.  Tempo que hoje faz falta. Mas quem lembra dele tem. E quem não lembra também tem depois de ler, ao menos um pouco. Ao menos um porco. Capado e “arrumado”.  “Era trabalho pra dois dias, pra muita gente. Os vizinhos acorriam, pra ajudar. E, na vez deles, acorríamos nós, numa corrente inquebrantável. Do porco só não aproveitávamos o grito.”

Atelobrobio,

Quando entro em “máquinas de tristeza”, persistem, de modo aterrador, o ar desolado de agosto e o cheiro da saponaria caseira na lua minguante. O último suspiro do capado carioca, cruelmente sacrificado em nome da nossa sobrevivência. Desse capado viveríamos alguns meses, num tempo pré-geladeira. E o que restava dele virava sabão feito, não com soda, mas com diquada, soda natural obtida da fermentação e da depuração das cinzas do fogão. E é desse capado que me vêm as lembranças de uma fome que não passava nunca e uma falta.

Como bem diz o poeta Donizete Galvão, em seu O grito:

O porco guincha
e sob a pata dianteira
sai a golfada de sangue
que enche a bacia.
Horas depois, pronto o chouriço,
comemos o sangue preto, as tripas, o grito

Tempos de solidariedade, de mutirões. “Arrumar” o porco, como se dizia, era trabalho pra dois dias, pra muita gente. Os vizinhos acorriam, pra ajudar. E, na vez deles, acorríamos nós, numa corrente inquebrantável. Do porco só não aproveitávamos o grito. No mais tudo virara alimento: as tripas, o sangue, o couro, o bucho. Até chegar às carnes nobres, o caminho era longo. Tripa grossa mais sangue, igual a chouriço. Tripas finas mais carne moída, linguiça que se defumava no fogão a lenha e depois era frita enrodilhada numa nera panelinha de ferro. Couro com toucinho e carne, torresmo que se fritava, sequinho, que virava paçoca socada no pilão ancestral. Só couro, uma manta que se secava e virava pele, no nosso idioma, “péia”, crocante ou amolecida depois no feijão. A parte nobre, o lombo e o pernil, ia pra lata, conservada na gordura, no que modernamente se chama de confit.

Mas a peça de resistência desse trabalho todo era o prato servido pro mutirão: arroz com suã, sendo a suã a espinha dorsal do porco, um mundo de osso e tutano com uma carninha que se cozinhava lentamente num tacho de arroz. Servido com feijão, mandioca derretendo e couve, essa iguaria alimentava meio mundo. Ainda hoje como arroz com suã feito no fogão a lenha de minha casa mineira, e mesmo no meu apartamento paulistano, quando meu filho, hoje chef de cozinha, recria o prato nas mesmas panelas de ferro que foram de mãe e de vó. Mas, no entanto, não obstante, entretanto, o sabor não é o mesmo, faltam a ele minha infância, meus pais ainda vivos, meus vizinhos solidários, o prato de ágata coberto com pano de saco alvejado que ia e vinha de casa em casa retribuindo gentilezas culinárias. Faltam uma cerca de arame farpado ornada de melão-de-são caetano e amor-agarradinho.

Um pé de abacate roxo. Peri Pereira, um cachorro com meu sobrenome. Um jardim de dálias e amores-magoados. Uma cerca de mandacaru e suas flores de lótus do sertão. Um caramanchão entrelaçado de maracujás, uvas ácidas e chuchus verdinhos. Um pé de marroio, com suas flores roxinhas, no entremuro. Um poço com sua carretilha que cantava todas as manhãs uma música triste. Uma mãe severa que lavava pra fora, fazia quitandas e cheirava alecrim-do-campo. Um pai amoroso que plantava brincos-de-princesa e avencas na aspereza da vida.

***

 

Este depoimento deu origem a um verbete em O dicionário das comidas impossíveis, que surge das respostas ao questionário Fatias de memória.
Clique aqui para contar sua história e nos ajudar a preencher esse relicário.

3 comentários Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s