O ensopado de pescoço de peru com agrião

Caroline Maciel Lauar nasceu em Belo Horizonte, em junho de 1980. A carta para o Lembraria ela escreveu de Munique, na Alemanha, cidade em que vive atualmente. O que lhe dá água na boca é uma receita dos tempos em que morou no Espírito Santo e por ela definida como “as mil possibilidades da impossibilidade”.

Olha, são muitas as lembranças. Muitas de mãe. Dessas que a gente chegava da escola e encontrava o lugar-comum, também tinha pimentão recheado de carne moída, couve-flor no forno com queijo e presunto… Tem as de vó, da vó cozinheira, lá de Goiás. Mesmo com um braço meio capenga por conta de um derrame, ela não saía da cozinha e fazia o gosto de cada um dos vinte e tantos netos.

Mas sabe uma que me fez salivar logo ao lembrar? O ensopado de pescoço de peru com agrião que a faxineira do trabalho, Dona Nélia, fazia com a vaquinha do almoço de sexta juntos. Tive que pegar a receita e, claro, não consegui fazer igual. Era maravilhosa e sempre pedia repeteco. Ela me chamava de “a devota do pescoço”.

Dona Nélia saiu e voltou algumas vezes pra fazer pra mim. Me sentia importante e muito querida. Estava então em Vitória, no Espirito Santo. Eu, em outra terra, com gente de sotaque diferente e gostoso. Caracachento. E veio aquele ensopado. Marcou, porque era “as mil possibilidades” da impossibilidade. Como pescoço de peru podia ser gostoso daquele jeito? O agrião lembrava aquele lugar-comum. E eu, ainda, mais observando do que cozinhando.

***

Conversando um pouco mais com Caroline, perguntamos se ela se lembra de como a Dona Nélia preparava a receita. Acho que sim, disse ela, mandando notícias da Alemanha. E descreveu o modo de fazer:

Começava colocando os pescoços de peru pra “chorar”, como ela dizia. Com muito limão, sal, pimenta e cheiro verde. Depois de um tempo, não me lembro direito, talvez uma hora, eles iam pra panela de pressão, mas antes ela fazia um refogado com cebola, alho e um cadim de pimenta. Depois tomate, cenoura, os pescoços.

Cobria com água – acho que ela colocava caldo de galinha também – e deixava apurar. Ao fim, na hora de servir, ela colocava o agrião.

E a gente comia com arroz branco.

Nossa, que fome de comer o ensopado! Pena que é tão difícil achar pescoço de peru por aqui…

***

Este depoimento deu origem a um verbete em O dicionário das comidas impossíveis, que surge das respostas ao questionário Fatias de memória.

Clique aqui para contar sua história e nos ajudar a preencher esse relicário.

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