Os bifes acebolados da vó Celina

Paula Pereira nasceu na cidade de São Paulo, mas parecia aguardar ansiosa as datas especiais em que, com a família toda, viajava para Ibitinga, no interior. Lá, ficava a casa-armazém da avó Celina, com quintal grande, pomar e bifes acebolados inesquecíveis. Aos 43 anos, Paula vive hoje entre Mairiporã e São Paulo e ainda não conseguiu encontrar bifes tão cheirosos e perfeitos quanto aqueles.

“Bifes acebolados da vó Celina, mãe do meu pai. Na minha infância, eu salivava de pensar nos bifes que a vó fazia especialmente quando eu ia. Somos quinze netos de seis filhos, quase todos de fora da cidade dela, Ibitinga [no interior de São Paulo]. E nas férias nos reuníamos com nossos pais em uma casa de sonhos nessa cidade. Era um remanescente de armazém, com um quintal fabuloso cheio de árvores, mangueira, goiabeira, jabuticabeira. E um barracão onde meu avô acumulava velharias, inclusive um caminhão da década de 1960 quebrado e muitas tralhas inúteis.

O ‘salão’ que um dia fora o armazém propriamente dito, sem janelas, só com portas de baixar de ferro nunca abertas desde que eu nasci ou antes, era habitado por uma balança de pesar sacos em arrobas, com pesinhos de ferro enferrujados, caixas de parafusos nunca usadas, um cofre de documentos, móveis do armazém de mais de quarenta anos e muitas, mas muitas quinquilharias, que se dividiam entre um colchão de casal sobre uma estrado e duas camas patente nas quais uma das seis famílias se acomodava no Natal.

Todos os cantos dessa casa, a sala do vô, a sala de estar, a despensa mal fechada por uma cortina de algodão ralo, os quartos interligados, a janela do quarto maior que era nosso caminho preferido para o pomar, a cozinha dupla (uma dentro, uma fora)… Tudo desse lugar dos sonhos era inundado pelo cheiro do bife acebolado. A carne era cansativamente martelada pela vó torta, escorada na pia por causa do bico de papagaio precoce. E feita com muito carinho e muito vinagre, sempre em silêncio, porque a vó e o pai, ao contrário de outros descendentes, eu inclusive, eram de falar muito pouco.

E eu, que cresci anoréxica, abaixo do peso e, nessas mesmas viagens, era taxada de “fraca” por ser magra demais pelo meu padrinho, cunhado da vó, só comia esse bife – além de outras indecências muito salgadas ou muito doces, mas não comidas –, sem me dar ao trabalho de juntar arroz. Só se fosse arroz com feijão disfarçado com muita farinha de rosca torrada em farofa pela avó. Tinha outra coisa… O quiabo frito que às vezes substituía o bife. Quiabo cortado em finas rodelinhas e frito pacientemente pela vó, depois drenado do óleo. Quiabo que não rendia nada. Não sei como ela aguentava cortar e fritar e escorrer para mais de trinta pessoas… Deve haver mais coisas. Mas lembro dessas. Nunca mais comi um bife acebolado tão bom, tão macio, tão curtido em vinagre.

Apenas para ser justa com minha outra avó, a materna, queria dizer que ela fazia o melhor cajuzinho do planeta Terra. E até hoje não como cajuzinhos em festas porque é sempre uma decepção, uma lembrança aleijada. O cajuzinho da vó baiana era perfeitamente enrolado, pouquíssimo doce, com o sabor acentuado do amendoim torrado, quase forte. Perfeito na forma, delicadíssimo, com meio amendoim fazendo as vezes da castanha de caju, um sabor intenso e nada doce, assim sendo repetitiva mesmo. Ele só perdia para o doce de Nescau que ela inventou. Um sei lá o quê forte, recheado de conhaque e uma uva-passa. Esse só me dá saudade porque, ao contrário do cajuzinho, nunca reencontro. Então também não me re-decepciono.”

***

Este depoimento deu origem a um verbete em O Dicionário das Comidas Impossíveis, que surge das respostas ao questionário Fatias de memória.

Clique aqui para contar sua história e nos ajudar a preencher esse relicário.

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