Coca-Cola faz cosquinha (na memória)

Lembraria_Coca
Década de 1940: chegada do refrigerante americano e, em breve, da Geração Coca-Cola (anúncio de 20 de junho de 1947 no Jornal de Notícias)

Centro de São Paulo, anos 1940. Sentado à mesa de uma confeitaria, Candinho, um caipira vindo de uma fazenda do interior de São Paulo, é apresentado a uma bebida nova, cheia de borbulhas que fazem “cosca” na garganta, recém-chegada dos Estados Unidos – como muitos dos modismos que, sobretudo a partir da Segunda Guerra, passavam a ser importados de lá para cá. Clarice, amiga de Candinho, quer que ele prove a novidade.

– Eita que essa tar de Coca-Cola até faiz baruio no destampar!
– Prova! Você há de gostar da novidade –, diz Clarice.
– Óia, faiz cosca.
– É o gás. São as bolhinhas –, explica a moça.

A cena fez parte de um dos capítulos do comecinho da novela das seis da Globo, Eta Mundo Bom!, uma historinha que se passa na segunda metade da década de 1940, entre uma fazenda do interior e um núcleo urbano, na capital paulista. (A conversa completa de Candinho [Sérgio Guizé] e Clarice [Marianna Armellini] pode ser vista aqui.) A novela termina na semana que vem, e ao longo desse período em que esteve no ar trouxe muitas referências – inclusive de comes e bebes – da São Paulo daquele tempo.

Merchandising à parte, achei particularmente interessante a cena da confeitaria porque me remeteu a uma história parecida, e não fictícia, que aconteceu também nos anos 1940, também com Coca-Cola, também em uma confeitaria do Centro paulistano, mais especificamente nos arredores da Praça da República. Imagino, aliás, que a cidade cenográfica em que se ambientou a novela tenha sido inspirada nessa mesma região, que era, na época, “o” reduto da vida diurna e noturna de São Paulo.

Desde 1937, quando o recém-remodelado Viaduto do Chá foi reaberto, todo o burburinho comercial que até então se concentrava mais no Triângulo, entre as ruas Direita, São Bento e Quinze de Novembro, ao lado da Praça da Sé, passou a se expandir para o lado de lá, para o chamado Centro Novo. Na época da novela (e da história que vou contar a seguir), o entorno da República era o lugar de São Paulo mais apinhado de lojas charmosas, restaurantes elegantes… e confeitarias famosas.

Duas dessas confeitarias, as mais concorridas, ficavam na rua Barão de Itapetininga, a Barão – epicentro do luxo da São Paulo quarentinha –, e chamavam-se Seleta e Vienense. A primeira servia chá inglês e umas línguas de gato que eram a perdição de certo vizinho, Monteiro Lobato, morador da mesma rua; a segunda oferecia doces e bebidas ao som de violino e funcionava no prédio em que o poeta Guilherme de Almeida manteve um escritório.

Como boa parte dos estabelecimentos da época, ambas as confeitarias, apesar do nome, eram híbridas nas funções de bar, doceria e restaurante: atraíam tanto famílias interessadas em sorvete, quanto jovens a fim de uma bebidinha (alcoólica, de preferência). A maioria deles era estudante da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, então instalada ali pertinho, no edifício da Escola Normal Caetano de Campos, na Praça da República.

Era no ambiente dos fundos da Vienense que um grupo de formandos e recém-formados em Filosofia na USP se reunia todo fim de tarde. Estavam entre eles Antonio Candido, Décio de Almeida Prado, Ruy Coelho, Gilda de Mello e Souza e outros jovenzinhos que, mais tarde, se tornariam intelectuais de renome. Naqueles anos 1940, eles haviam acabado de fundar a Revista Clima e se encontravam ali para discutir os assuntos de cada edição: literatura, teatro, música, política… Tinham tudo para ser autênticos boêmios, mas, para o desgosto de certos intelectuais da velha guarda, não tomavam porres de uísque; preferiam Coca-Cola.

O jornalista e escritor Luiz Martins, na época marido de Tarsila do Amaral, não se conformava. Apelidado de Louis Martin du Bar, em referência torta ao escritor francês Roger Martin du Gard, ele era conhecido por presidir etílicas conversas de bar no Rio de Janeiro, sua cidade-natal, e em São Paulo, onde vivia. Era também freguês da Vienense. Certo dia, ele estava em uma mesa da casa, junto do amigo e cronista Rubem Braga e do copo de uísque, quando viu entrarem no salão os moços da Revista Clima, que foram se sentar logo ao lado. Em seu livro Um Bom Sujeito, Martins lembra que:

“[…] Pediram chá, refrescos e um deles, para escândalo meu e do Rubem, encomendou ao garçom uma Coca-Cola. O grande cronista fez uma observação qualquer, comentando o fato – e eu, em resposta, expliquei: – ‘Que quer você, meu caro? É a geração Coca-Cola.’ E a piada, repetida aqui e ali, espalhou-se. Oswald de Andrade, bem mais espirituoso e mordaz, já inventara o epíteto de chato-boys, que pegou. Da minha parte, não havia o menor intuito ferino ou inamistoso (tratava-se de uma brincadeira inofensiva) – e assim o entenderam os rapazes da Clima, tanto que me convidaram a colaborar na sua revista.”

O que incomodava modernistas como Oswald de Andrade e até mesmo Luiz Martins não era apenas o fato de que esse novo grupo, ao preferir Coca-Cola, parecia desdenhar de uma suposta tradição boêmia-intelectual. A ironia que os fazia chamá-los de “geração Coca-Cola” ou “chato-boys” tinha a ver, sobretudo, com uma mudança de mentalidade entre as duas décadas que os separavam: os intelectuais dos anos 1940, bebedores de Coca-Cola, deixavam subentendido que os da geração anterior, afeitos a bebidas bem mais fortes, esbanjavam palpites, mas careciam de argumentos e métodos científicos nas ações que propuseram durante e a partir da Semana de 22. Em outras palavras, os modernistas seriam a turma do oba-oba; os “chato-boys” estariam mais comprometidos em analisar a realidade, em propor discussões pautadas em conhecimento – e, por isso mesmo, bem mais sóbrias, regadas a refrigerante.

Um sentido diferente da ideia de americanização presente na geração Coca-Cola proposta pela canção do Legião Urbana nos anos 1980 parecia embutir o apelido dado por Luiz Martins à turma da Vienense nos 1940. A falta de “álcool” nas conversas daquele grupo simbolizava, mais do que a influência estrangeira, lucidez – ou chatice, para alguns – na hora de conduzir as velhas questões sobre a sociedade e a cultura.

O curioso é que na década de 1960, entre as “gerações Coca-Cola” da Vienense e de Renato Russo, talvez tenha existido uma terceira. Nessa época, a juventude intelectual não mais frequentava as confeitarias da Barão; havia se transferido para os bares da Avenida São João, da Galeria Metrópole e da Vila Buarque, que seria chamada nesse mesmo período de Quartier Latin exatamente por sediar crescente número de points boêmios ao redor do novo endereço da USP, na rua Maria Antônia – assim como ocorria no original Quartier Latin, de Paris, nos arredores da Sorbonne.

A boemia dessa turma da década de 1960 era bem menos familiar, bem mais contestadora e bem mais bêbada do que a de dez, vinte anos antes. E a Coca-Cola, curiosamente, ainda fazia parte dela. Não mais pura, é verdade: tinha, agora, de ser misturada a gelo, limão e muito, muito rum. Era a geração cuba libre que se anunciava. Mas isso já é história de outra novela…

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