A geração canudinho

No início dos anos 1940, a turma de intelectuais que visitava a Confeitaria Vienense ganhou o apelido de “geração Coca-Cola” por usar o refrigerante americano – em vez de uísque e afins – como combustível para a sua sóbria “boemia”. No fim da mesma década, com a bebida borbulhante já consolidada entre os jovens, a expressão passou a ter outro sentido, talvez mais óbvio.

Em um texto publicado no Jornal de Notícias de 30 de janeiro de 1949, intitulado A Geração Canudinho, o cronista Paschoal Milantônio constata que a americanização, começada, segundo ele, mais ou menos com o fim da Primeira Guerra, havia tomado conta do país e da juventude. Moços e moças não paravam mais de dizer “okay” e “baby” nas conversas e de pedir o famoso refrigerante símbolo dos Estados Unidos nos bares por aí.

“E no ano da graça de 1918, o que é que verificamos? Simplesmente isso: – o brasileiro, o povo menos predisposto do mundo a americanizar-se, americanizou-se completamente. Monstruoso, incrível, mas é a verdade. […] Se encontrarmos um cidadão fumando, verificaremos que a marca do cigarro é americana. Se virem uma moça bonita, esportiva, perfumada e perguntar-lhe a marca do seu perfume, ela responderá com ênfase e orgulho: é ‘yankee’. […]

Como se porta a nossa mocidade? Francamente à americana. Um grupo de rapazes conversando, sem dúvida alguma, é a coisa mais gozada e pitoresca do mundo em que vivemos. É ‘big’ pra cá, é ‘big’ pra lá. É “alô hey’ aqui e ‘alô baby’ acolá. ‘Okay’ é uma palavra então que se ouve a todo instante.

– Você vai ao cinema?
A resposta é seca e vibrante:
– ‘Okay’.

[…]

Um meu amigo, espírito satírico e irreverente, denominou essa mocidade de ‘geração Coca-Cola’, porquanto todos eles gostam de tomar Coca-Cola e outros refrescos com o indefectível canudinho, tão vazio e oco quanto o cérebro de animais bem vestidos e ridículos. O Coca-Cola, que aliás é um refresco como outro qualquer, não tem culpa da fatuidade dessa gente. A culpa é deles, que tomam tais refrescos por mera imitação, pois ouviram dizer que nos Estados Unidos bebe-se muito disso.

Para Milântonio, essa “geração Coca-Cola” era Coca-Cola não pela sobriedade das conversas de bar, mas exatamente porque adorava tomar porres de cultura americana. Um tanto dramático, o cronista ainda fala desses jovens como se fossem de alguma forma culpados por abalar a até então inabalável tranquilidade da São Paulo – e olha que só bebiam refrigerante, hein? Ao menos é isso o que o autor parece descrever, de forma trágica, no fim de sua crônica, prenunciando de certa maneira a juventude transviada das décadas seguintes:

“Se estiver tranquilo numa esquina e passar três mimosos adolescentes, imberbes, raquíticos, paletó saco, sapatos de quatro solas, cabelinhos trançados, fumando cachimbo como os heróis de Hollywood, não tenham dúvida – é da escória dos canudinhos essa gente que atravanca o trânsito, enche os cinemas, infelicita a rua Barão de Itapetininga, estoura aos sábados na avenida São João e arruína o Brasil.”

 

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