O bacon e a ira de Deus

Nos Estados Unidos, bacon e ovos mexidos são sinônimos de café da manhã dos bons, daqueles tradicionais, viscerais, dos autênticos diners de beira de estrada. No entanto, uma parte considerável da população americana sempre se absteve da gordurosa fatia de toucinho suíno no desjejum e em qualquer outra refeição do dia por motivos religiosos. Muitos deles são judeus seguidores fiéis da dieta kosher e, por isso, avessos à carne de porco, em todas as suas formas.

Uma dessas judias americanas chama-se Razie, uma senhora prestes a completar 90 anos. Ela nunca provou bacon na vida – os cafés da manhã de sua casa, embora americanos, jamais tiveram a companhia daquele brilhante e farto pedaço de gordura suína. Razie não se importava muito com isso, já que sempre se manteve fiel às tradições kosher em sua cozinha. Mas as coisas começaram a mudar, e drasticamente, quando a simpática senhora descobriu um novo mundo, diferente e fascinante, chamado Google.

Razie é a protagonista do documentário Bacon and God’s Wrath [Bacon e a Ira de Deus], dirigido por Sol Friedman e publicado na seção Screening Room da revista norte-americana The New Yorker. Em pouco mais de 8 minutos, Razie narra de forma tocantemente sincera, como se estivesse deitada em um divã (e, no início do vídeo, ela está mesmo), suas histórias de família, seu grande encontro com o Google, suas mudanças de crença, seus “medos”, seu misto de vontade e aflição ao provar bacon pela primeira vez – e o que isso vai mudar ou não em sua vida.

O vídeo, que mistura cenas reais e animação, fala por si só, mas, mesmo assim, tomei a liberdade de verter, informalmente, o depoimento de Razie para o português. Trata-se, a meu ver, de uma reflexão poética (ainda que sem querer) sobre os laços imaginários – incluindo aí o da memória e o da fé – que mantemos com a comida. Para quem quiser assistir, o filme se encontra neste link.

O bacon e a ira de Deus

De vez em quando, eu penso que seria bom comer um sanduíche de bacon e tomate.

Então, Razie, o que você acha que aconteceria, o que te preocupa?

Eu vou desviar dessa pergunta, porque não tenho certeza qual é a pergunta.

Bom, por que você “continua” kosher?

Bem, antes de você mergulhar, parece ser uma experiência completamente nova, uma vida completamente nova. E você vai ousar? Você fica dividido entre a segurança, entre onde você está, e a lealdade aos seus pais. E eu não posso deixar de imaginar se isso vem dos genes ou dos padrões da mente. Eu acho que, para mim, esta é a parte essencial do documentário.

Como são seus pais?

Bem, eu sempre achei que eles eram muito distantes. Papai era muito severo e muito observador. Mas eu acho que ele era assim em grande parte porque a mãe dele, minha bubbe Esther, era muito rigorosa com ele.

Papai uma vez me contou a história da bubbe para ter certeza de que eu iria me comportar. Bubbe Esther tinha uma irmã gêmea chamada Gertie. E elas eram muito próximas, praticamente inseparáveis.

Mas Gertie tinha um jeito sombrio e sempre metia ela mesma e Esther em encrenca.

Bem, uma vez as meninas estavam fazendo algo que não deveriam estar fazendo quando um vizinho acabou vendo. Nessa pequena comunidade, as fofocas se espalham muito rapidamente. E quando o rabino descobriu, as coisas realmente saíram do controle. Ele “trabalhou” junto a toda a comunidade e logo havia uma grande comoção. A única maneira de corrigir as coisas era punir Esther. E ela foi punida.

Posso perguntar a maneira como ela foi punida?

Bem, preferia não falar disso.

Sua mãe também era religiosa?

Eu acho que muitas das ideias da minha mãe vinham desse rabino. Eu já não consigo lembrar o nome dele. Ele estava sempre falando sobre pecado e sobre o fim do mundo. Ele dizia que a sociedade moderna era perversa. E que a fé era nossa única arma. O que é engraçado porque, anos depois, ele foi preso por vender armas…

Onde eu estava mesmo?…

Fé. Em vários sentidos, é como acreditar em fantasmas ou em Papai Noel ou na fada do dente. Mas as crianças são geralmente ensinadas que essas coisas são imaginárias.

E quando você se deu conta disso?

Bem, eu gostaria que minha história fosse um pouco mais interessante, como se eu tivesse questionado Deus depois de sofrer uma grande perda ou de lutar para aceitar um filho gay. Mas minha vida adulta não foi assim tão interessante. Foi simples e boa. Eu me casei com um homem decente, tive quatro crianças maravilhosas e criei uma boa família judia.

E, então, dois anos atrás, eu comecei a usar a internet. Minha jornada na internet começou por acaso. Eu estava procurando uma receita, mas rapidamente fiquei fascinada pelo Google. Eu começava a digitar uma frase e ele adivinhava o fim dela. Eu não gostei disso no começo, mas havia algo realmente profundo nisso. Alguns dos meus mais íntimos pensamentos e questionamentos estavam compartilhados. Eles eram tão comuns que o Google podia antecipá-los.

Esse sentimento de conectividade foi maior do que qualquer outro que eu já tivesse sentido indo à sinagoga. Bem, como você pode imaginar, esse foi o “primeiro passo em uma ladeira escorregadia”. E rapidamente eu fui de Julia Child a Christopher Hitchens.

Logo, se tornou muito difícil para mim acreditar naqueles inacreditáveis absurdos. Era como se algo tivesse mudado, e o mundo tivesse ficado um pouco diferente.

Então, você se tornou uma apóstata?

Bem, eu prefiro “não crente”. Talvez infiel.

Mas você ainda tem algumas reservas?

Bem, eu estaria mentindo se dissesse que não fico um pouco nervosa. Velhos hábitos demoram a morrer, eu acho.

Com o quê você está nervosa?

Eu nem sei. Com algum tipo de punição, eu acho. O fim do mundo. A ira de Deus. O que me preenche agora é apenas um pequeno gesto sem sentido. Mas é mais do que isso também. É um avanço simbólico da razão sobre a fé. Vez ou outra eu ouço as pessoas dizerem que é preciso coragem para ter fé. Mas não há nada de corajoso nisso. Fé é acreditar sem ter evidências. Vem de nossas superstições inerentes. Nosso medo do escuro. Mas agora nós sabemos mais. É corajoso escolher a verdade, mesmo que ela signifique abandonar o que você sabe.

Então, Razie, como foi?

Eu pareço perfeitamente bem. Não fui arrasada pelo braço pesado de Deus. Parece que sobrevivi bem e não vomitei.

É um bom café da manhã.

 

 

 

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