Conte outra

“Cuidado: quase sempre, nós idosos nos servimos da saudade para “viver”, numa lembrança inventada, algo que, de fato, não conhecemos – e agora é tarde. Nossa vida não foi o que queríamos, e ela não vai mudar mais, no entanto “tivemos”(na lembrança) uma infância de conto de fadas, não é?” Essa sentença é uma fatia da coluna de Contardo Calligaris na Folha de S. Paulo de 30 de junho de 2016 e que pode ser lida na íntegra neste link.

Gosto da reflexão que o aviso provoca em mim como gosto do bolo branco, fofo por causa dos ingredientes secos peneirados, misturado à mão e oferecido assim, sem cobertura e aos pedaços, ao lado da xícara de café preto recém-coado que tenho hoje ao meu lado enquanto escrevo esse texto.

Acho que os dois dizem muito.

Há na pergunta de Calligaris a sugestão de uma verdade importante – e não é só no contexto em que foi usada. O artigo do psicanalista trata em especial do resultado do referendo do Brexit que deve levar a Inglaterra a deixar a União Europeia e onde podemos entender que o voto dos mais jovens perdeu para o dos mais velhos. No original, antes de “quase sempre” foi escrita a palavra “cuidado”. Cuidado com o saudosismo.

Também quando falamos de, pensamos em e escrevemos sobre comida e memória muitas vezes associamos o passado a um tempo bom que de fato não volta mais. Será que era tão bom assim, em que cenário? Será que o que me comove é meu ou é minha apropriação de uma história tão bem contada pelo outro, misturada ao desejo de ter vivido uma pureza de sentidos que talvez não tenha jamais existido, mas que busco a cada mordida? Afinal… faz sentido essa história de conto de fada?

Muitas vezes inventamos as lembranças em que desejamos acreditar. Enfeitamos, carregamos nas tintas ou ainda reproduzimos discursos desde muito cedo, para contar e recontar e construir a nossa própria história. É como se a gente quisesse explicar as trapalhadas seguintes. Ou elaborar significados.

Minha filha, que está com cinco anos, já diz coisas do tipo “há muito tempo, quando eu tinha três anos, eu gostava muito de abóbora. Não gosto mais.” A menina sabe do presente (‘não gosto”) e eu torço para que no futuro seja diferente, que (re)descubra o prazer de um cubo de cabotiã (?) al dente, sob um fio de azeite, mas o fato é que não sabe o que está perdendo, porque não se recorda, ao menos não em seu consciente, de comer abóbora com a vontade que eu disse a ela que ela fazia.

Essa lembrança de gosto é mais minha do que dela. E eu tenho saudade.

Nós, os indivíduos de todas as idades, às vezes inventamos memórias ou nos apropriamos da nostalgia do paladar e do sentimento do outro simplesmente porque precisamos agarrar a corda na busca por sentidos. É melhor do que cair de cara no chão. Sem vínculo, sem gosto, sem desgosto.

Em algum lugar da minha imaginação, meu pai teve uma infância de conto de fada. E sabemos nós, os que leem os contos de fada por conta própria, ao lado da cama dos nossos filhos e, ainda que furtivamente, depois que eles adormecem, que nem toda “infância de conto de fada” significa, necessariamente, o mais puro creme de felicidade. Há muitas asperezas. Leia Pinóquio, de Carlo Collodi, por exemplo.

Outro dia, um domingo desses em que a toalha da mesa já está marcada pelo molho de mais uma insuperável receita da minha mãe, meu pai falava um pouco de sua vida de menino em um sítio no Borá, interior de São Paulo. Não perguntei se eu poderia escrever isso, apenas espero que não se importe.

Eu havia dito a ele que pretendo começar a fazer linguiça em casa, para poder comer todos os dias da minha vida em que tiver vontade e tirando o melhor do sabor e da qualidade da carne do porco sem me preocupar com os conservantes, corantes e outros aditivos artificiais. Achei um curso bastante prestigiado, pai, vou me inscrever. Fresca e defumada.

Em casa, sempre fizemos isso, ele disse. Depois ponderou: “No entanto, hoje em dia, a indústria oferece carnes limpas e saudáveis. Sem doença…” É, pai, mas sabia que eles lavam a carne com detergente no processamento, e que colocam um monte de conservantes que se consumidos com regularidade fazem muito mal pra gente? “Sim.” E sabia que a linguiça tem aquele tom avermelhado, porque o nitrito opera uma certa maquiagem? “Sim, a nossa era mais para o marrom-claro, talvez cinza”. Justamente. Linguiça fresca. A carne bem transformada, de um porco saudável, é boa, né, pai, e se eu fizer a linguiça em casa posso comer e oferecer para a menina sem culpa nenhuma. Já vejo sanduíches, ragus, risotos, acebolados. Vai ser lindo. Um tempo que eu vou usar direito.

Ele não diz nada. Esfinge. Eu conheço essa cara. Quando estou deslumbrada ele em geral está pensando no assunto.

E suponho que pense também no que era bom “daquele tempo”. E feliz, triste, difícil, espontâneo.

Na cidade em que meu pai nasceu e passou boa parte de sua infância, Borá, vivem pouco mais de 800 pessoas. É o menor ou o segundo menor município do Brasil (parece que perdeu recentemente o primeiro lugar para Serra da Saudade, em Minas). Fica perto de Paraguaçu Paulista, onde a família também viveria por algum tempo.

Meu avô tinha um sítio. Lavoura de café e outros que tais. Horta, pomar. Leite fresco. Os bichos eram criados soltos no quintal e a crianças também. Corria um riacho lá no fundo. Nos dias muito quentes, os moleques mergulhavam na água morna de verão camarões de água doce e improvisavam um lanche.

Tudo o que precisavam era produzido ali. “Quando se coava o café, os primeiros fios da bebida que escorriam para o bule, ainda não tão forte, eram bebidos pelas crianças. Os adultos ficavam com a parte mais encorpada.” Ao se sacrificar um porco, seguiriam-se uns dois dias para processar, na cozinha da casa, cada parte do animal. Nada se perdia e todos trabalhavam. Houve um ano em que meu avô levou para casa um cabritinho, para cuidar e engordar. O sonho dele era oferecer aos filhos, no Natal, um belo banquete (…). As crianças se afeiçoaram tanto ao animalzinho que o desejo de seu pai nunca foi realizado.

Essas lembranças são de meu pai, mas me enchem de uma saudade que eu não sei explicar. Eu me aproprio delas e chego a me entristecer um pouco. Houve um momento em que o avô não tinha mais como dar vazão à produção do sítio. Ele decidiu que o melhor a fazer era vender tudo e arrumar um emprego na grande São Paulo. O que teria sido deles todos e de nós, seus netos, cheios de dúvidas, se isso nunca tivesse acontecido? Não sei.

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