Quitutes juninos, com amor e sorte, sem milho nem amendoim

As festas juninas de nosso tempo parecem ter gosto de milho. Curau, canjica, pamonha. E de amendoim também. Pé de moleque, paçoca doce. Mais recentemente, festa junina também ganhou gosto de sanduíche de pernil, de churrasquinho de carne e até de qualquer outra coisa “gourmet” da vida. Mas já houve um tempo em que, além dos tradicionais quitutes de milho, a mesa dos festejos de São João tinha espaço para docinhos luso-brasileiros feitos com outros ingredientes e batizados com nomes que evocavam afeição: bolinhos de amor, biscoitinhos saudade, beijos saborosos, sonhos de moça, suspiros…

Esses doces com nomes amorosos, alguns ainda tão comuns, não eram exclusividade dos festejos juninos; frequentavam os tachos e os fornos a lenha das cozinhas antigas durante o ano todo. Gentil de Camargo (1900-1983), jornalista nascido em Taubaté, foi um dos primeiros estudiosos do folclore paulista – mais especificamente do Vale do Paraíba – a pesquisar receitas açucaradas que, para ele, estavam em processo de esquecimento. Em um artigo chamado Doçaria, religião e amor, publicado na extinta revista Paulistânia em 1960, ele fez uma interessante análise entre o sentido do gosto e o sentimento do amor. Começava assim:

“Os nomes líricos, românticos, amorosos da doçaria luso-brasileira provam que palavras significativas do sentido do gosto são significativas do amor.”

Segundo Gentil, de forma única, ambos – gosto e amor – só se expressam e se sentem por meio de uma mistura de todas as outras sensações: tato, olfato, visão, temperatura. Em outras palavras, podemos até sentir o cheiro de uma fruta sem sentir seu gosto; mas é somente ao prová-la que a combinação meio inexplicável de sabores, textura, consistência, aroma, visual etc. nos faz senti-la de verdade e gostar (ou não) dela. O mesmo, de acordo com essa “teoria”, acontece com o amor: ele só aparece quando a junção de todos os sentidos nos parece agradável, “gosto-sa”.

Nessa linha de raciocínio, Gentil acaba chegando à conclusão de que, do mesmo modo que as receitas (em especial as doces) ganharam nomes de sentimento na cozinha brasileira, também alguns sentimentos receberam apelidos relacionados ao paladar. Ele menciona, para exemplificar, expressões como “doçura do amor” ou “amargo da ingratidão” e até mesmo o verbo “comer” e a palavra “apetite”, que, ainda hoje, mantêm uma conotação sexual:

“Ora, talvez justamente por isso, por essa complexidade, é que o amor e a concupiscência [desejo sexual] tomam nomes designativos do sentido do gosto e que vêm a servir para ambos esses apetites.”

Voltando aos inocentes docinhos com nomes de sentimentos, é certo que muitos deles tinham presença constante nas antigas festas de junho, desde sempre marcadas pelas superstições, pelas simpatias, pelas previsões sobre o futuro (as “sortes” que o digam) e, claro, pelos pedidos de amor aos santos casamenteiros do mês – Santo Antônio e também São João.

A folclorista Jamile Japur reuniu algumas dessas juninas e românticas receitas no livro Cozinha Tradicional Paulista, lançado em 1963 e dedicado, não à toa, a Gentil de Camargo. Entre 27 e 30 de junho de 1970, a publicação de Jamile serviu de inspiração para o cardápio de uma festa junina que foi realizada na Praça Roosevelt, pela Associação Brasileira de Folclore. Na ocasião, velhas quituteiras foram convidadas para preparar e servir docinhos amorosos, como o bolinho de amor e o biscoitinho saudade, que andavam meio esquecidos já naquela época, 46 anos atrás.

Neste último sábado, 18 de junho de 2016, Vivi Zandonadi e eu, do Lembraria, e a jornalista, amiga e cozinheira Renata Helena Rodrigues resolvemos relembrar os docinhos amorosos de uma forma bem concreta: tiramos bolinhos de amor, biscoitinhos saudade e bolos de São João (de que falarei em outro post) do livro de receitas de Jamile Japur e os levamos para uma banquinha junina montada na festa do Dia da Música na Banca Tatuí, no bairro de Santa Cecília, em São Paulo.

Reproduzimos as receitas do jeitinho que Jamile as registrou em seu livro, em 1963, fazendo, é claro, uma adaptação aqui, outra ali. Se você visitou nossa banquinha de quitutes Lembraria ou ficou curioso para saber como preparar esses antiiigos docinhos, aqui vão as receitas, passo a passo.

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