Sobre abismos e tortas de cebola

Recordo furiosos ataques de abstinência de nicotina, meu corpo entorpecido, fissurado enquanto eu vasculhava entre as almofadas do sofá e rastejava embaixo dos guarda-louças em busca de moedinhas perdidas. Por dezoito cêntimos de franco (mais ou menos três centavos e meio de dólar), dava para comprar cigarros de uma marca chamada Parisiennes, vendidos em pacotes de quatro unidades. Lembro de alimentar os cães e achar que eles estavam comendo melhor do que eu. Lembro que L. e eu considerávamos a sério a possibilidade de abrir uma lata de comida para cachorro e comer no jantar.

(…)

Os tempos mais difíceis para nós foram o final do inverno e o início da primavera. Os cheques não chegaram na data prevista, um dos cães foi roubado e pouco a pouco fomos obrigados a nos virar como podíamos, atacando o estoque de comida na cozinha. No final, não havia sobrado mais nada, a não ser um saco de cebola, uma garrafa de óleo de cozinha e um pacote de massa para torta, que alguém tinha comprado ainda antes de nos mudarmos para a casa — uma sobra mofada do verão anterior. L. e eu aguentamos a manhã inteira e até o início da tarde, mas lá pelas duas e meia a fome havia nos vencido, e fomos para a cozinha preparar a nossa última refeição. Em vista da escassez de ingredientes com que tínhamos de trabalhar, uma torta de cebola era o único prato que fazia algum sentido. Depois que nossa mistura ficou no forno pelo que pareceu um tempo suficiente, nós a tiramos de lá, pusemos na mesa e nos servimos com voracidade. Contra todas as nossas expectativas, os dois achamos delicioso. Acho que até chegamos ao ponto de dizer que era a melhor comida que havíamos provado em toda a nossa vida, mas sem dúvida foi só um artifício, uma frágil tentativa de manter nosso ânimo elevado. Depois de mastigar um pouco mais, no entanto, logo veio a frustração. De modo relutante — mas muito relutante mesmo —, fomos obrigados a reconhecer que a torta ainda não estava completamente assada, que o recheio ainda estava frio demais para ser comido. Não havia nada a fazer senão colocá-la de volta no forno por mais dez ou quinze minutos. Levando em conta a fome que estávamos sentindo, e o fato de que nossas glândulas salivares tinham acabado de ser acionadas, abdicar à torta não foi nada fácil.

A fim de reprimir a nossa impaciência, saímos da casa para dar uma volta, imaginando que o tempo iria passar mais depressa se nos afastássemos do cheiro gostoso que vinha da cozinha. Pelo que lembro, demos uma ou duas voltas em torno da casa. Talvez tenhamos começado uma conversa mais animada sobre sei lá o quê (não consigo lembrar), mas, seja lá o que tenha acontecido, e seja lá quanto tempo tenhamos ficado fora da casa, o fato é que na hora em que entramos de novo a cozinha estava cheia de fumaça. Corremos para o forno e puxamos a torta para fora, mas já era tarde demais. Nossa refeição estava morta. Tinha sido incinerada, queimada até virar uma massa carbonizada e empretecida, e não dava para salvar nem um pedacinho.

Hoje a história parece engraçada, mas na época não teve graça nenhuma. Nós havíamos caído num abismo escuro e nem eu nem ela conseguíamos imaginar um jeito de sair dele.

(…)

Eram umas quatro da tarde. Menos de uma hora depois, o errante sr. Sugar apareceu do nada, parou o carro na frente da casa, no meio de uma nuvem de poeira, cascalho e terra, triturando tudo a seu redor. Se eu pensar com bastante força, ainda consigo ver o sorriso inocente e apatetado em seu rosto na hora em que ele saltou do carro e nos deu boa tarde. Foi um milagre. (…). Naquela noite Sugar nos levou para jantar em um restaurante de duas estrelas. Comemos bem e copiosamente, esvaziamos várias garrafas de vinho, rimos até não aguentar mais. E no entanto, por mais deliciosa que provavelmente estivesse a comida, não consigo me lembrar de nada. Mas nunca esqueci o gosto da torta de cebola

Em 1973, o escritor americano Paul Auster vivia na Europa e aceitou, junto com uma namorada, o emprego de caseiro numa propriedade rural no sul da França. “Nessa ocasião, nós dois estávamos sem dinheiro e, se não fosse aquela proposta, teríamos sidos obrigados a voltar para os Estados Unidos”, escreveu ele em um dos capítulos do livrinho de memórias e acasos O Caderno Vermelho (p.12, Companhia de Bolso). Na “grande construção de pedra do século XVIII, margeada por vinhedos e por uma reserva florestal” e longe dois quilômetros do vilarejo mais próximo os dois viviam de seus trabalhos freelance, cuidavam da casa e dos cachorros, mas sempre “à beira do abismo”.

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