“Somos todos mortais [só] até o primeiro beijo e o segundo copo”

Estava suave o sol, o ar limpo e o céu sem nuvens. Afundado na areia, um caldeirão de barro fumegava. No caminho entre o mar e a boca, os camarões passavam pelas mãos de Zé Fernando, mestre de cerimônias, que os banhava em água-benta de sal e cebolas e alho.

Havia bom vinho. Sentados em roda, amigos compartilhávamos o vinho e os camarões e o mar que se abria, livre e luminoso, aos nossos pés.

Enquanto acontecia, essa alegria estava já sendo recordada pela memória e sonhada pelo sonho. Ela não terminaria nunca, e nós tampouco, porque somos todos mortais até  o primeiro beijo e o segundo copo, e qualquer um sabe disso, por menos que saiba.

Miniconto “A Festa”, encontrado da página 266 de O Livro dos Abraços (Ed. 13, L&PM), do escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015). Tradução de Eric Nepomuceno.

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