Biscoitos “da sorte” tradicionalmente paulistas (e juninos!)

festa junina_Correio_Roscas com sorte_23-06-1880_2
Anúncio de quitutes “com sortes” no Correio Paulistano de 23 de junho de 1880

Muito antes de qualquer influência chinesa em São Paulo, quando o bairro da Liberdade nem sonhava ser oriental, alguns estabelecimentos da cidade já serviam biscoitinhos da sorte – que, de inspiração asiática, aliás, nunca tiveram nada. Os quitutes paulistas da “sorte” eram, na verdade, antigas receitas de bolinhos, sequilhos e roscas que, em junho, por volta da segunda metade do século 19, vinham acompanhadas de papeizinhos coloridos que continham versos simples, escritos à mão ou compostos em tipografia.

Esses pequenos e singelíssimos poemas chamavam-se “sortes de São João”: meio debochados, meio premonitórios, eram muito comuns em junho, e não apenas em São Paulo, nem necessariamente na companhia de comidinhas. O modo mais corriqueiro de ter acesso a eles, inclusive, era comprar um dos variados “livros de sortes” que chegavam de Portugal e do Rio de Janeiro às nascentes livrarias – em São Paulo, à famosa Garraux, fundada em 1860 – especialmente para os festejos de junho.

A leitura dos versinhos dava-se sempre durante as festas de São João, que, ainda nesse período, eram o ponto alto do mês, apesar de ele abranger a comemoração de dois outros santos importantes para a igreja católica – Santo Antônio, no dia 13, e São Pedro, no dia 29. Não por acaso, as festas eram conhecidas como “joaninas”, e não juninas, seguindo a antiga denominação desse folguedo vindo de Portugal séculos antes (há registros desse evento no Brasil desde o primeiro século da colonização).

Nessa segunda metade do século 19, período em que as recém-abertas confeitarias da cidade anunciavam seus bolos e roscas “com sortes” no jornal Correio Paulistano, a festa de São João ocorria, geralmente, na véspera do dia 24. Costumava ser organizada nos quintais de vizinhos, amigos ou familiares, embora os mais ricos já pudessem frequentar os grandes bailes de São João realizados pelas primeiras sociedades recreativas, a exemplo do Tivoly Paulistano, que teria sede em um famoso hotel do período, o das Quatro Nações, no Pátio do Colégio (nesses bailes, aliás, eram comuns as quadrilhas, danças coletivas “importadas” da Europa e, naquele momento, ainda nada caipiras).

festa junina no Tivoly Paulistano_Correio_21-06-1865
Anúncio de baile de São João no Correio Paulistano de 21 de junho de 1865

Enquanto isso, nas festas dos quintais, predominavam a fogueira, o mastro erguido em homenagem ao santo, os balões confeccionados em detalhes ao longo do mês e a mesa farta, com canjica, cuscuz, doces… Depois do soltar dos balões e dos fogos de artifício – os anúncios de lojas vendendo esse tipo de material, mais bombinhas e busca-pés, também invadiam os jornais nessa época do ano – , uma das pessoas da casa convidava todos a se sentar: era a hora das “sortes”. Os papeizinhos ou o livro eram abertos e, então, alguém fazia uma pergunta sobre seu futuro, quase sempre relacionada a casamento, saúde e profissão (esta última, diga-se, apenas para os homens). Uma “sorte” era pinçada e ficavam todos ansiosos pela leitura:

“Quem chegou à tua idade
E não pôde noivo achar,
Deve perder a esperança
D’algum dia se casar”

Ou…

“Quem não pode, como tu
Ficar um dia calado
Outra vida não procure
Há de dar bom deputado.”

Quase nunca favoráveis ao futuro de quem a “sorte” se destinava, esses versinhos pareciam servir mais à diversão (talvez a um bullying consentido) do que a uma previsão séria – não deixava de ser gostoso, afinal, comprar um quitute e, de surpresa, receber um palpite sobre o que estaria por vir…

De qualquer maneira, ao que tudo indica, essas “sortes” eram aparentadas das simpatias de São João, que sobrevivem até hoje, embora agora mais associadas a outro santo junino, Santo Antônio, o casamenteiro. Não são poucas as mandingas feitas na véspera do dia 13, não à toa transformado no Brasil em Dia dos Namorados.

Aproveito, então, a data para recuperar uma receita que parece ter sido “a” simpatia usada por moçoilas e moçoilos de outros tempos – era direcionada a São João, mas talvez funcione também no próximo domingo, véspera de Santo Antônio. É mais ou menos assim:

Encha um copo d’água e quebre, dentro dele, um ovo. Passe-o por cima de uma fogueira [quem sabe possa ser, hoje, qualquer chama de fogão?!], fazendo um movimento de cruz e mentalizando seu futuro. Coloque o copo em local seguro. Na manhã seguinte, corra para ver a imagem que o ovo formou na água: se os contornos forem de…

  • Barco: há uma viagem à espera.
  • Capelinha ou cruz: casamento à vista!
  • Caixão: cuidado, enterro próximo…

 

4 comentários Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s