Aurélia foi embora

O café ficou por algum tempo deitado sobre o balcão e perdeu os primeiros vapores da transitoriedade. Quando a menina trouxe a xícara e colocou-a à sua frente como quem dá uma sentença (de morte), ele agradeceu, bebeu, tentou não contorcer demais o rosto e, em seu habitual estado de autodestruição, pediu outro. Camicase. Traga também uma fatia daquele bolo, por favor, não o de fubá. O que tem glacê de açúcar.

A funcionária não podia acreditar no desaforo. Ele queria ser atendido (!) e ainda pedia o bolo que, na semana passada, nos disse que estava mofado. (Nota: na semana passada, Bernardo deixou algumas desculpas sobre a mesa, é verdade, e foi embora. Falou, no entanto, sobre perder a noção do tempo e achar que aquela pintinha azul-esverdeada na cobertura poderia ser um “princípio de bolor”. Pois é, acontece, vivemos dias úmidos, como quem condena a persistência da garoa pelo cabelo arruinado. Foi tudo por água abaixo, tão devagar e no traço fino, que mal percebemos a transformação. Aquele ponto verde é coisa de comida viva e não morta, disse. Ninguém mais estava prestando atenção. Ele parou.)

Bernardo é assim. Ele não reclama, pede desculpa e, depois de fechar a loja, sempre volta à confeitaria em que ama ser odiado. É o chefe dos chapeleiros, o genro muito grato, herdeiro de um sogro cuja filha foi embora. Bebe café e um cálice do Porto. Às vezes pede o tal bolo que não vai comer. Pensa nos filhos (que não tiveram), nas viagens (não existiram) e nos livros que pararam de ler juntos e comentar. Então veio o silêncio, que a princípio parecia tão certo. Ele os traiu.

Ao lembrar do barulho dos sapatos dela, refaz seus passeios pelo assoalho. Pastilhas finas batendo um suave tá,tá,tá, guardando a louça, esticando a toalha, arrumando a mesa, buscando um pano de prato, abrindo uma janela, fechando a outra, ajeitando um copo, apertando a cintura, aproximando-se do parapeito para se certificar de que iam bem os festejos dos vizinhos em dia de churrasco no quintal. O vestido farfalha, como se a cada movimento deixasse escapar um barulhinho de fritura de imersão.

Os calçados do próprio Bernardo iam raspando na pedra da rua a caminho de casa e soavam cada vez mais depressa nos primeiros dias. Um barulho dentro de sua cabeça. Queria chegar logo. Sentar, conversar, ouvir. Com o tempo, ganharam outra cadência. Ela se calou. Os passos dele foram ficando tranquilos e vagarosos.

Alguns trocados e uma hora de sua jornada adiam a chegada ao sobrado tão vazio. Cheio da ausência de Aurélia. Antes, ele fazia uma hora ali com medo de encará-la, medo de não caber em nenhum dos ambientes tomados pela intensidade daquela mulher, que era um ser e um estar aumentados pelo cheiro da comida sempre tão simples e, por isso mesmo, extraordinária. Sentia-se em permanente dívida.

Aurélia cozinhava o arrependimento? Parou de usar a voz da boca para falar por meio da comida? Até quando errava, normal, tudo o que estava “certo” se reordenava pelo engano, sem prejuízo. E ela contava uma outra história.

***

Bernardo se apaixonou logo no primeiro dia e a cada visita ao local em que a moça trabalhava, vendo-a se mover, aumentava a compreensão daquele corpo e daquela voz. Se ela lhe dava as costas, observava com curiosidade a penugem discreta e quase transparente que descia da nuca e parecia percorrer pedaços específicos, distribuindo-se embaixo dos panos aqui e ressurgindo ali, no braço alongado, branco e marcado por pequenas pintas, que a permitia alcançar algumas das prateleiras altas só na ponta do pé. Ou seja: ele passava o tempo todo pensando em outras coisas. E todas essas outras coisas eram ela.

Mãos magras, unhas curtas, dedos ágeis. Pontas geladas. Bernardo queria morar naquele jeito de dizer “pronto, aqui está” ou, ao tratar com algum de seus velhos: “o senhor toma uma colher de sopa à noite e espera. Procure o médico pela manhã. O xarope só atinge o sintoma. Volte com uma receita”.

O que a moça tinha de mais bonito, na opinião de Bernardo, eram os olhos castanhos grandes e cercados por olheiras de quem gosta de ler à noite. Havia também um estranho, volumoso e atraente estado de não saber de si. Ele queria não saber junto com ela. Só ao lado de Aurélia ele conhecia a dúvida. Quem é Aurélia, o que deseja Aurélia, aonde vai Aurélia. Preciso não saber de Aurélia.

Por esses dias, e a partir do primeiro acaso (ela tocou o braço dele com a ponta fria dos dedos e perguntou se poderia ajudar), ele vivia aflito. Um tipo de culpa católica no embate com o desejo. Que lixo humano, pensou. Apaixonado pela balconista do boticário, enquanto a mãe espera o remédio em casa. Chegou a se autorizar, responsabilizando a enferma que nunca sarava, nunca morria. A verdade é que amava profundamente as duas e os papeis que ocupavam em sua vida. Aos poucos entendeu, divertido, que a mãe o conduzia na direção da Aurélia por medo de ir embora e ele ficar sozinho. Gostou desse lugar. Perdoou-se.

Nos encontros regulares, percebeu o conjunto, se aninhou nele. A quis (mais) e a teve (mesmo) na primeira oportunidade longe de toda aquela madeira escura e cheia de remédios, um ambiente que lutava em vão para neutralizar o calor da Aurélia. Falou, amou e (achou que) entendeu Aurélia. Combinados, foram viver juntos no sobrado. Eram livres em sua escolha.

***

Aurélia parecia contente. E ele queria acreditar. Vou voltar a pintar, disse ela, e mostrou para o Bernardo o cavalete e a tela vazia, à espera de novas histórias. Vai pintar o que? O que surge depois que baixa a poeira, quando a cidade para de crescer por um tempo. E ficou calada. Aqueles olhos enormes repousaram nele. Era como se ela não esperasse nada.

Durante todos os dias em que viveram juntos, enigmáticas mensagens saíam de dentro da casa. Mal virava a esquina, já começava o jogo mental de adivinhar. Em geral havia um pão assando, porque ela aproveitava o calor do forno depois de distribuir sobre a mesa as peças do jantar. Para não se enganar era preciso pensar um pouco e separar os aromas. Aos poucos ele começou a entender que existia canela na expectativa, algum caldo vigoroso na preocupação. Em caso de boa notícia ela costumava trabalhar com carne de porco. Se estivesse triste ou com saudade, haveria uma etapa cheia de açúcar.

***

Aurélia foi viver com Bernardo, porque o queria e o amava. Essas coisas. Mas não foi só por causa delas. Contou o sogro mais tarde que a filha fugia das mulheres que vigiavam seus passos, ansiosas para que ela andasse como elas. De um lado a mãe, as irmãs, as tias. Do outro o sobrado, o amor, a tela muda. Quem sabe ela conseguiria dar algum outro sentido aos gestos. O velho disse, também, que nunca ninguém a ensinou a cozinhar e que aprendeu por observação e dor, porque ao perder para alguma doença um dos clientes mais amigos lá do boticário ela se metia na cozinha e transformava o luto em receita que entrava pela madrugada. Em geral era alguma compota perfumada, do tipo doce de abóbora temperado por cravo e calda de maracujá.

Bernardo estudou, foi trabalhar na loja dos chapéus e achou que Aurélia tinha tudo. Eles conversaram e se amaram até a véspera do dia em que ela parou de falar. Primeiro, ele esperou. Cumplicidade? Ela continuava ali, falando só pelas panelas. Depois vieram os primeiros sinais de ressentimento da parte dele, que, na desistência, passou a chegar tarde. Ela continuava ali, falando só pelas panelas. Mas ele agora comia sozinho, o sabor acomodado nos pratos quase frios. Fechava os olhos e muitas vezes quis abraçá-la, mas ela parecia estar deitada faz tempo ou assim ele queria acreditar.

Na verdade, Aurélia começou a correr para debaixo das cobertas ao ouvir o sapato de Bernardo bater na pedra. Fingia dormir. Levantava ainda na madrugada, a mesa do café era linda e perfumada logo de manhã. Ela não dizia nada. Ele partia. Ela ficava. Trocavam bilhetes que jamais eram lidos na presença um do outro, porque encontrados nos momentos a sós. Ela, ao pegar alguma coisa na penteadeira de três espelhos ou ao arrumar a cama ou ao guardar um casaco dele. Ele, ao meter a mão no bolso para pegar um cigarro. Sempre no mesmo lugar. Combinavam lista de compras, ele deixava o dinheiro. Voz, nenhuma.

E nunca naquela casa faltava (mais) nada. Nem manutenção nem comida nem reuniões. Eles até recebiam os amigos às vezes. Aurélia não falava, mas como estivesse o tempo todo com aquele ar preocupado, cuidando de tudo, sorrindo e oferecendo um prato, um bocadinho, um acepipe impressionante, ninguém parecia estranhar. Faziam suposições, falavam mal e bem dela pelas costas e de boca cheia. Ela não precisava participar.

Aurélia continuou a perfumar a rua inteira antes e depois das refeições, desde o preparo, feito relógio de igreja. Todos sabiam. E assim foi por muito tempo e até o dia em que ao chegar, o peito apertado como sempre, ele encontrou o último bilhete. Tem um guisado no forno, e pão sobre a mesa. Amanhã não sei como vai ser, Bernardo, porque eu não vou estar aqui. Nem depois. Em letra redonda, ela escreveu: eu preciso ir e deixei na compoteira de vidro um doce de abóbora. Temperei com calda de maracujá.

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