“Junho é bom como uma saudade”

E, finalmente, ela tirou a folhinha de maio da parede; apareceu a de junho. Uma sensação meio mística a encheu por dentro, com sabor da canjica que a mãe, desde cedo, deixava aferventar no fogão. O pai estava animado: a poucas semanas seria noite de São João, véspera do dia 24, aquela em que todos ganhavam a chance de fazer pedidos, de sonhar em realizar desejos. E antes dela ainda tinha a de Santo Antônio, o casamenteiro, no dia 13. E, depois, a do mais respeitável dos santos, São Pedro, que recebeu as chaves do céu, no dia 29. Junho era, para eles, minha mãe e meus avós nos anos 1950, 1960, no interior de São Paulo, mais ou menos o que o mês de dezembro e o réveillon passaram a ser hoje: um tempo de festa, de presságios, de mentalizações positivas para os meses que viriam a seguir.

A espera pela véspera de São João era demorada, mas nem se notava. Tinha canjica pronta no fogão a lenha e amendoim torrado todo dia, despejado na antiga lata de biscoito. Tinha milho cozido no fim da tarde, com aquele cheiro doce que tomava conta da casa inteira. Tinha papéis de balão e de bandeirinha colorida espalhados pela casa, sendo transformados e costurados dia a dia. Tinha pacote de busca-pé e bombinha se acumulando no armário. Tinha fogos de artifício sendo negociados pelo pai no empório da esquina. Tinha lenha sendo baldeada aos montes, para a despensa.

Quando o dia 23 amanhecia, dava-se início ao entra e sai do quintal para a cozinha, da cozinha para a sala. Bandeirinhas entre a mangueira, a figueira e o pé de romã. Balão pronto, lindo, enorme, aguardando no canto seu momento de subir. Lenha armada no meio do terreno para a fogueira. Beata da paróquia próxima tocando a campainha: vinha rezar o terço, para liberar pai e irmãos para ajeitar o mastro no quintal, com a bandeirola de São João, costurada pela mãe, lá no alto. (Dava sorte!) A mesa estava posta. E tinha quentão, cuscuz, pamonha, paçoca doce e de carne-seca, espetos de milho e de rodelas de batata-doce para assar na fogueira.

Ao mesmo tempo, antes e depois da comilança, a vitrola de móvel da sala arranhava moda de viola. Palmeira e Biá, Cascatinha e Inhana cantavam esganiçado, e também o duo Brasil Moreno, formado por duas irmãs, Dora e Antonieta, que desde 1953 faziam sucesso nas festas de São João com a seguinte música:

Os santos do mês de junho
Santo Antônio é o primeiro
É querido dos mocinhos
É santo casamenteiro
São João é mais lembrado, é mais festejado
E a isso faz jus
São João nós bem sabemos
Foi quem batizou Jesus
Ó meu São Pedro, a esse santo
Quero tirar meu chapéu
Ele é um grande santo,
é o porteiro do céu

Minha mãe, que me conta essas histórias de uma festa de São João que eu nunca vi, termina sempre assim: “saudades”. Talvez seja por causa dessas histórias – e da canjica, e do doce de batata-doce, e do quentão ainda tão vivos – que eu também fique na expectativa, todo ano, para junho e suas festas. Em homenagem a este mês, farei aqui uma série meio óbvia, sobre festas juninas de outros tempos: sobre os quitutes servidos com versinhos para dar sorte no século 19; sobre certa festa que aconteceu em 1970, na Praça Roosevelt, com quitutes da São Paulo antiga – e que tentaremos reproduzir em uma festa real, no bairro de Santa Cecília, em breve…

Enfim, a saudade junina que minha mãe sente não é só dela, nem só de seu tempo. Muito antes de ela ter nascido, em 15 de junho de 1922, na extinta revista A Vida Moderna, um colunista chamado João Garoa já falava com nostalgia de um junho paulistano que parecia tão, tão distante. Assim dizia ele:

“Junho é frio como um pesadelo, junho é bom como uma saudade, junho é singelo como a própria noite de S. João.

[…]

Ah! A tradição de junho! Onde a época dos nossos avós em que eram sagrados os costumes e singelos, tão singelos os hábitos festeiros do nosso povo! São João. Vai morrendo a tradição de junho… Vai com o progresso desaparecendo a lenda, vai fugindo com o último clarão da nova moda e bruxuleio [apagamento] da moda antiga.

[…]

Junho… Junho é o próprio S. Paulo, é a expressão mais característica da fisionomia paulista. Garoa… Garoa…”

1 comentário Adicione o seu

  1. Ernestino Lopes Buriti disse:

    Nós fazemos festa junina a mais desde os tempos do meu pai, até hoje colocamos as bandeirinhas, as bandeiras dos santos, pipoca, pinhão, quentao, doces e…pasmem… fogueira na calçada mesmo.
    É muito lindo, é pura dedicação aos santos.

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