O silêncio dos dias

Lá estavam eles. O fogão e a mulher. Entre os dois havia um poço de dúvidas e nela uma vontade de pular. Silêncio enclausurado em pintura de Edward Hopper, não entrasse pelo janelão o barulho da cidade crescendo do lado de fora. Os minutos tombavam, um depois do outro. Naquela tarde, a cozinha cheia de uma luz âmbar, bonita de doer, fazia um pouco de frio e dava para ver a serra – uma beleza de muralha. Ajustou a faixa do roupão, que afrouxado deixava entrever o corpo em abandonada liberdade até a hora do banho, quando a casa estaria arrumada (aprendeu que a energia escapa pela desordem), e ela apertaria a cintura no vestido.

O jantar. Foi fumar na janela. As unhas vermelhas. Os cabelos presos em delicados e promissores rolinhos. O que eu faço hoje? Lamentou, no desgaste da dúvida, ter desistido de trabalhar para sempre no balcão do boticário, onde tudo era mais simples, ainda que intenso. Desistiu porque resolveu se casar com o moço bonito que buscava os remédios da mãe e depois que ela morreu continuou indo, sem receita alguma.

Não havia muita novidade: ela gostou de se sentir desejada e ele a desejava muito. Ela gostou de conversar e ele conversava muito. Sobre tudo. Primeiro ficaram amigos e depois, quando já eram amantes, achavam que já sabiam de tudo. Vivendo juntos, acreditavam que continuariam a rir muito e a se ajudar, e de fato foi assim durante um bom tempo. Ele iria em frente nos estudos e no ofício de artesão e comerciante da loja de chapéus, herança do velho sogro (o pai dela). Ela não sabia o que fazer. Poderia voltar a pintar.

Não sentia remorso por jamais ter se envolvido no negócio da família e muito menos de oferecer a eles na bandeja de prata carregada de segundas intenções o filho homem que não tiveram. Foi um enorme alívio, na verdade, quando o então “noivo” mostrou interesse pelo trabalho e foi praticamente adotado. Seus pais adoravam falar com ele, ouvi-lo, e se esqueciam um pouco dela, cuja fortuna agora parecia estar dada.

De sua parte, preferia ouvir os velhos que vinham buscar uma opinião sobre a tosse e, após longa conversa e uma porção de histórias antigas e queixas contemporâneas, levavam um xarope e a recomendação de procurar o médico, que aquilo só aliviava sintoma. Medir as cabeças das pessoas era desconfortável e triste. Mais triste do que notar a ausência ruidosa dos que, se paravam de movimentar a porta vaivém do boticário, haviam caído de doentes. Ou tinham morrido. Se um dos filhos ou netos entrava em seu lugar, ela pressentia um acerto de contas póstumo. Muitas vezes acertava – ir sozinho ao boticário era das últimas fronteiras de autonomia.

Para cada um deles vivia o luto sozinha, quando chegava em casa e encontrava os cômodos adormecidos e a cozinha da mãe irritantemente limpa, nenhuma louça fora do lugar. Em despedida simbólica de um amigo perdido, derrubava um pouco de farinha no chão. Uma transgressão que deixasse marcas de uso e de vida ordinária. Largava um copo no escorredor. Batia um bolo, fazia um doce, sentia o perfume do palito de fósforo a se apagar.

Foi assim que começou a cozinhar: imitava a empregada da família, uma mulher graciosa e enorme, e deixava suas próprias pegadas. Achava a cozinheira enorme, no sentido de poderosa. Na verdade, era miúda de corpo e movia-se com agilidade, soberana em seu território, com total domínio dos gestos. Sua mãe, a avó e as tias só entravam ali para combinar o dia e conferir a ordem geral. Uma cozinha desorganizada rouba a energia da casa, diziam.

***

O sobrado tem um quarto extra bastante arejado. A luz é bonita em qualquer estação. Pegou suas economias para comprar o novo material de pintura e encomendar o cavalete que nunca usou. O que você faz o dia todo?, pergunta a mulher de um amigo dele, que chega sem avisar. É de uma autoridade insuportável achar que pode chegar assim, avaliando tudo. Rude. Eu pinto, mente a não artista. Meu assunto preferido é o que dá para ver quando baixa a poeira das ruas depois da passagem de um carro, sabe? Silêncio. Mas ainda não me sinto pronta para mostrar (estudos inacabados que só existem na imaginação). Outro silêncio.

E além de pintar eu também cozinho. A suave indiferença da moça se desfaz e, empertigada, anima-se a transitar num assunto que supõe conhecer. Eu já sabia, sua mãe me contou que você não quis contratar ajuda. As pessoas falam que a sua casa tem cheiro de comida (olha ao redor,  uma sala irritantemente quentinha e gostosa de ficar, aposto que pensa isso, e estica a mão para agarrar, com os dedos de onde acabou de lamber açúcar e canela, outro bolinho perfeitamente frito). Sorri de boca fechada um sorriso estranho de quem cultiva certo desprezo pelo outro. Bebe um gole de chá e devolve a xícara no pires como quem revela um segredo: o cheiro muda, dizem, dependendo da hora. E tem gosto. O cheiro da minha casa tem gosto? É o que dizem. Ela se limita a elevar as sobrancelhas e a apertar um pouco os lábios. Incapaz de encontrar o que dizer. Era mais fácil ouvir os velhos.

***

Todos os dias ela encara na esfinge o abismo de não saber o que fazer para o jantar. E teme uma derrota doméstica. Ter a ideia de uma comida por dia, em sequência que faça sentido, demanda energia considerável de alguém que divaga e carece de senso prático. Gasta-se mais no plano do que na execução.

Almoçou o que sobrou de ontem, extremamente grata por saber sobrar. Um cálice de vinho do Porto lá pelas três da tarde. Uma saída para comprar algumas coisas. Na volta, pôs tudo sobre a mesa e tentou imaginar a composição. Nunca foi dito nada do tipo você cuida da casa e do que comemos e eu vou buscar o dinheiro. Aos poucos o que era uma tentativa de dividir tarefas virou hábito que virou costume bem cortado e que agora parece apertado demais, porque a desafia a manter um repertório imbatível e a impede de olhar para outros lados. Desse modo, quando consegue (e geralmente é assim), o brilho em seus olhos não deixa ver que há dentro dela o medo e a frustração. Como vim parar aqui? Quero ter filhos? Gosto de cozinhar? Por que gostamos de viver juntos e à parte? Gostamos? Como ele não sabe a diferença entre salsão e alho-poró?

Uma parte do silêncio dos dias ela preenche lendo e mal fazendo as contas domésticas. A outra usa para cortar cebola, bem picadinha. Abre a massa da torta com bastante raiva – quando está furiosa, em geral, faz de maçã, bem caprichada e estufada –; introduz manteiga temperada sob a pele do frango caipira que veio do sítio da vizinha.

Diminui um pouco a platitude ver como o vizinho, o marido da mulher do frango caipira, parece nervoso ao fazer uma entrega. Se matam um porco na chácara, ele faz a viagem até a vila apressado. Traz as partes mais prestigiosas do animal. Ela entende a tensão (e o gesto) como reconhecimento. Retribui, no dia seguinte, com um punhado da linguiça fresca e percebe no ar que fritam quase que imediatamente, abrem vinho e assam pão. Todos um pouco embriagados. Até as crianças, sempre tão rendondinhas e curiosas, parecem mais festivas e coradas nessas ocasiões.

***

Aparentemente, tudo funciona para todo mundo. Ela fecha a porta atrás de si quando o fornecedor se vai e volta a reduzir caldos, assar peças suculentas; separar e acomodar insumos. Um bolo para o café da manhã. Um manjar branco bastante preguiçoso (ela acha) de sobremesa. Imagina se lá fora as pessoas franzem o nariz tentando adivinhar o que se passa. Enquanto o forno dá continuidade ao trabalho, corre para deixar tudo limpo ao redor. A energia escapa, assombra a memória.

Nunca quis nenhum tipo de ajuda, é verdade. É controladora demais para admitir alguém arrastando a sandália no assoalho, seguindo seus passos e a observando enquanto vive em sua própria casa. Teve o suficiente disso sendo a última das irmãs a nascer, com todas aquelas mulheres vigilantes surgindo de repente por trás da sombra de algum móvel. Quanto tudo está pronto, suspira o bom cansaço e se afunda na espuma da banheira. Lê um pouco, quase adormece. Senta-se na penteadeira de três espelhos, brinca com os reflexos do rosto tão menos novo, solta os rolinhos dos cabelos. Cobre os lábios de vermelho. Sorri.

Desce, algo aliviada e consciente de que hoje tudo lhe cai bem. A cintura apertada não incomoda. Vê se está bom o vinho. Pela janela escapa o aroma levemente adocicado da crosta do assado, agora misturado ao perfume do banho. Abre o forno, rega mais um pouco para não secar, lembrando-se da recomendação do livro estrangeiro de receitas: “give the crisp some love”. Daquele ponto escondido da assadeira, um pedaço da carne se descola. Tem brilho e cor e suco. Confere o ponto e o sal. Pensa que será lindo o almoço de amanhã, ela com ela. Perto da perfeição.

Da moringa de barro, pega um pouco de água e espera ele chegar. A mão espalmada, os dedos bem abertos, os minutos tombando um depois do outro (Hopper, de novo). Tudo o que a imagem não diz é: e se hoje ele não vier; e se vier e não gostar; o que eu vou fazer amanhã; quando é hora de partir?

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