Cheiros e sons que lembram comida e São Paulo

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Entre as escassas fontes sobre o passado, sobretudo antes do século XX, uma das mais interessantes são os relatos escritos por memorialistas, pessoas que, por diversos motivos, decidiram publicar em livro ou em colunas de jornal as lembranças que guardavam sobre “seu tempo”. As histórias cheias de detalhes de uma época de simplicidade – do encontro diário com seu José leiteiro e seu Salvador peixeiro, por exemplo – parecem nos conduzir à outra cidade, na companhia de uma testemunha que supostamente viveu aquilo que pretendeu contar e registrar.

O advogado paulistano Jorge Americano (1891-1969) quis ser um desses “guias” pela São Paulo de sua memória. Quando se aposentou, no fim dos anos 1950, começou a colocar no papel suas recordações a respeito da época em que havia sido criança e jovem na cidade. Em 1957, lançou o livro que seria o primeiro de uma trilogia. São Paulo Naquele Tempo, reeditado em 2004 pelas editoras Narrativa Um, Carrenho Editorial e Carbono 14, reúne variadas crônicas sobre o cotidiano do finzinho do século XIX ao início do XX. (Jamile Japur, em seu livro Cozinha Tradicional Paulista, usou a obra de Americano como fonte para um ensaio sobre a alimentação em São Paulo.)

Muitos desses curiosos textos envolvem alimentação. Em uma das passagens mais poéticas da obra, o memorialista fala sobre os cheiros – inclusive os de comida – que o faziam se lembrar de São Paulo por volta de 1900.

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Cheiros que se sentiam
De fumaça de lenha das locomotivas da Sorocabana, e de carvão de pedra, da São Paulo Railway.
De café torrado em casa.
Cheiro acre de detritos de animais, nos estacionamentos de carros de aluguel.
Cheiro de açúcar mascavo e de açúcar preto.
De capim-melado e de capim-gordura.
Cheiros vindos dos quiosques de mictórios.
Cheiro de poeira em dias de vento noroeste.
De terra molhada das regas dos jardins ao cair da tarde.
De água de moringa de barro.
De tachadas de marmelada.
De sol quente.
De “damas-da-noite”.
De jasmim e de magnólia.
Cheiro de suor azedo de imigrante.
De incenso de igreja.
De pólvora dos fogos de São João.
De gente aglomerada.
De cachimbo, cigarro e charuto.
Cheiro de preto.
De pão fresco.
De geleia de mocotó, de feijoada, de cozido, de carne-seca.
De bafo de onça no Jardim da Aclimação e de gaiola de macaco, no Jardim da Luz.
De fogareiro a álcool.
De querosene das lâmpadas portáteis.
Do pavio da vela soprada.
De lisol e creolina.
De álcool e ingredientes de farmácia.
Da goma dos tecidos ordinários.
Do lacre da correspondência no Correio.
Do bueiro da esquina, das latas e da carroça do lixo.
Do mofo das aberturas dos porões baixos.
De madeira nova na serraria.
Da carrocinha de frutas.
Da carrocinha das verduras.
Dos frangos em jacás.
Do bacalhau pendurado na porta da venda.
Dos couros expostos na Rua 25 de Março.
Cheiro de papel na papelaria.
De restaurante de segunda classe.
Dos tabuleiros dos peixeiros.
Da castanha assada e da pipoca.
De rosa-chá.
De rosa “príncipe negro”.
De velas de cera na igreja.
De sujeira de cachorro na sola do sapato.
Cheiro de pobreza e de riqueza.
De flores de enterro.
De comida antes da refeição. E depois da refeição.
De criança em período de amamentação.
Cheiro de mulher feliz.
De biscoito de polvilho saído do forno.
De curtume.
De sacristia.
De água sobre cinzas de incêndio apagado.
De um bico de gás esquecido aberto.
Cheiro de alcatrão perto do Gasômetro.
De carvão de ferro de passar roupa.
Cheiro de espuma de sabão de lavadeira em roupa exposta ao sol no coradouro.
(pp. 169-71)

É interessante refletir um pouco sobre os aromas que Jorge Americano escolheu registrar como se fossem símbolos “daquele tempo”. Sem ordem aparente, a lista dá ao leitor a impressão de que ela foi feita no correr do pensamento, de uma mistura de referências ora caseiras, ora vindas das ruas da cidade. Do café torrado em casa, o autor passa para o cheiro acre de detritos de animais vindos dos estacionamentos de carros de aluguel; do aroma das tachadas de marmelada na cozinha, ele segue para o jardim, com sol quente, damas-da-noite, jasmim e magnólia, e olha para a rua, impregnada pelo cheiro do suor azedo de imigrante.

Os ambientes privados e públicos, subjetivos e objetivos, misturam-se no texto, como deviam se misturar também em sua memória. Da mesma forma, combinam-se nas lembranças o “naquele tempo” e o tempo em que ele se sentou na cadeira para escrever suas crônicas. O historiador João Luiz Maximo da Silva, autor de algumas importantes obras sobre a história da alimentação em São Paulo – como o livro Cozinha Modelo, a respeito do impacto da chegada do gás e da eletricidade no cotidiano culinário da cidade (Edusp, 2008) –, escreveu recentemente um artigo relacionado a essa obra de Jorge Americano e também à Belenzinho 1910 (Retrato de uma Época), de outro memorialista, Jacob Penteado.

Intitulado A Venda de Alimentos nas Ruas Paulistanas nos Relatos dos Memorialistas (1895-1915), o texto publicado na revista Contextos da Alimentação do Centro Universitário Senac nos alerta sobre a necessidade de não tomar as memórias desses autores como se fossem registros ou fontes inquestionáveis de uma época. Maximo menciona exatamente esse trecho sobre os cheiros, na obra de Americano, como uma possível e bastante subjetiva amostra das transformações por que passou e passava a cidade no momento que ele decidiu selecionar e transferir suas lembranças para o papel. Diz Maximo que “o cheiro talvez seja uma das formas mais interessantes de se mobilizar a memória, e essa amostra da lista de cheiros que Jorge Americano evoca possibilitaria uma série de ilações em relação à percepção da cidade e seus habitantes em um contexto de crescimento e diversificação”.

Da plataforma dos anos 1950, uma época de intenso culto ao progresso, a mesma em que Jamile Japur percebia como nos afastávamos das tradições do passado, Americano avista o virar do século como um bálsamo de simplicidade e pureza perdidas. A fumaça das locomotivas já estava lá, como número 1 de sua lista, como se fosse responsável por implantar o cheiro de modernidade que tanto inebriaria a imagem da cidade. Mas outros elementos nada modernos ainda se faziam presentes, e com mais força.

Dentro de sua casa, ao que parece, continuava a reinar uma cozinha simples e acaipirada, de biscoito de polvilho saindo do forno a lenha, de doce de tacho, de pão fresco, de feijoada, de cozido, de carne-seca. E havia abundância: comida ao menos não faltava, fosse antes, fosse depois das refeições. Nas ruas, os cheiros eram ainda mais vivos. Americano, de mãos dadas com a saudade e com o leitor, parece montar um convidativo passeio pela vizinhança de sua residência, o Triângulo, região entre as ruas de São Bento, Direita e Quinze de Novembro, principal centro comercial e de serviços da cidade até o início do século XX.

Pelas ruas de paralelepípedo, o então menino de calças curtas e suspensório vai apontando os ambulantes que conduziam as carrocinhas de fruta, de verdura, de pipoca, de castanha. Mostra o bacalhau pendurado na porta do armazém, e as cestas – jacás – cheias de frango. Esbarra em gente aglomerada, imigrantes, negros, ricos e pobres… Essa cidade pintada pela memória de Americano, apesar do cheiro de xixi dos quiosques e de sujeira dos bueiros, parecia mais aprazível do que qualquer outra. Era nela, afinal, que o autor sentia “cheiro de mulher feliz”. Dá até uma saudade alheia desse lugar, não fosse ele, como qualquer imagem da memória, apenas um lapso de lembrança e imaginação.

O que Americano disse sem querer, nas entrelinhas de sua seleção de cheiros, também conta histórias. Revela, por exemplo, a classe média a que ele pertencia – entre o “cheiro de pobreza e de riqueza” –, e até, talvez, certo preconceito ou empatia que ele tivesse pelos imigrantes que, desde 1870, não paravam de chegar. Ele os associa a um “suor azedo”, que pode ser desagradável mas ao mesmo tempo representativo daqueles que trabalham muito, usando as mãos, a força física, para sobreviver. “Cheiro de preto”, também destacado na lista, não requer muitas descrições; indica a grande presença de descendentes da escravidão na São Paulo de fins de século XIX, que seriam tratados como “pretos”, de forma geral e muitas vezes pejorativa, ainda por muito tempo.

Além de cheiros, Jorge Americano recheia seu livro com referências aos sons que ouvia na São Paulo de sua infância e adolescência, de conversas na cozinha entre sua mãe e alguma comadre, de gritos dos vendedores que passavam na rua. Uma dessas crônicas tem como personagem um garoto de 15 anos, chamado Querubim baleiro. Com um tabuleiro de guloseimas, o menino enfrentava a concorrência dos ambulantes italianos, que também se metiam nesse ramo da comida de rua. Quando ambos atravessavam a calçada de sua casa, o jovem Americano ouvia:

Sorvete! Sorvete! Creme! Creme! Abacaxi! Abacaxi!
A tarde estava quente, dessas raras tardes quentes de São Paulo, em que voam içás. Estava escurecendo. – Mamãe! Sorvete! Mamãe! Sorvete!

Em uma tarde fria de São Paulo, sem formigas-içás voando dos quintais dos prédios vizinhos ao do meu apartamento, termino este texto ouvindo o grito de um ambulante que, todas as tardes, sem falta, caminha pelas ruas de Santa Cecília vendendo “sooorvete, sooorvete, sooorvete!”. Ele grita tão alto e tão rápido que, às vezes, nem é possível entendê-lo… Paro para pensar, então, nos sons e nos cheiros com sabor de comida que marcam a São Paulo de nosso tempo. Alguns, por incrível que pareça, são ainda “daquele tempo” de Americano.

Cheiro de café (coado ou tirado da máquina) em casa.
De pão fresco.
De carrocinha de frutas.
De milho verde cozido no caldeirão do carrinho de alumínio.
De refogado de cebola na hora do almoço da vizinha.
Som de sorveteiro na rua.
Som de alto-falante do caminhão de abacaxi e morango…

6 comentários Adicione o seu

  1. João disse:

    Belo texto. Obrigado pela citação

    Curtido por 1 pessoa

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