Um livro, duas moças e uma cachaça com canela

jamile
O livro lançado com canelinha e quitutes em uma noite de agosto de 1963

Já era quase noite quando Jamile finalmente conseguiu se arrumar. Havia chegado mais cedo do trabalho para ter tempo de embalar os biscoitos preparados por Luzia, sua cozinheira, e pegar a canelinha (cachaça com canela) que ela mesma tinha feito dias antes e guardado na geladeira. Àquela hora estava tudo pronto. Já dentro de seu vestido de cintura marcada, com seu mais bonito óculos gatinho, ela reforçou o laquê do penteado, equilibrou a garrafa e os pacotes de quitutes e saiu ansiosa pela porta do apartamento da Rua Augusta, em direção ao salão de eventos do Centro Dom Vital, na Rua Barão de Itapetininga.

Era 29 de agosto de 1963, e o lugar só começaria a se encher depois de sua chegada. Ela não só havia cuidado dos comes e bebes do evento, como seria também sua protagonista. Era, afinal, a noite de lançamento de Cozinha Tradicional Paulista, o primeiro livro de Jamile Japur (1920-1979), o primeiro a ser publicado sobre o tema. Entre bocados de biscoitinhos de receita antiga e goles de canelinha, todos estavam ali para celebrar a autora e a sua obra, um híbrido de livro de receitas e de ensaios, que tomou dela cerca de oito anos de pesquisa.

Eu não pude ir ao evento. Fui nascer vinte anos depois, e ainda levei mais uns trinta até me interessar pelo livro lançado naquela noite de agosto. Depois de percebê-lo com frequência entre as referências bibliográficas de publicações sobre a cozinha tradicional, fiquei intrigada: comecei a buscá-lo em sebos. Demorou, mas finalmente o encontrei, caro como uma raridade, lindamente ilustrado pela artista plástica Tereza D’Amico. (Logo na capa, reproduzida na foto acima, traços inspirados no crochê das toalhas de mesa artesanais emolduram o título…)

Mesmo sem cachacinha para acompanhar, o livro me encantou, assim como a história de sua autora. Ambos viraram fonte e objeto da pesquisa que desenvolvo no mestrado; ambos viraram uma espécie de guia pelas lembranças da cozinha tradicional de São Paulo. Sintomaticamente, a obra nunca foi reeditada. Sua primeira e única edição, em tiragem que parece ínfima, foi lançada pela Folc-Promoções, um braço de eventos e divulgação da então ativa Comissão Paulista de Folclore, da qual a autora era, na época, secretária-executiva. Antes de falar do livro, no entanto, vou focar um pouco a mulher que o criou, uma moça de Piracicaba, que, há mais de cinquenta anos, já se dedicava a estudar a relação entre comida (paulista) e memória.

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Jamile Japur, ao centro, e duas amigas, na época de lançamento do livro (Foto: acervo pessoal João Carlos Japur Sachs)*

Nascida em 1920, Jamile foi a caçula de três irmãs, filhas do libanês João Miguel Japur e da espanhola Encarnación Lopes. Muito provavelmente, aprendeu a cozinhar com a mãe, que, apesar da procedência, ficou conhecida entre os parentes por preparar um memorável pastel de carne, nada ibérico, bem caipira. Ao que tudo indica, pode ter sido uma tal madrinha, dona Luizinha de Mattos, a responsável por ensinar à espanhola de Málaga as técnicas da cozinha paulista, ainda no começo do século 20.

Formada na antiga Escola Normal de sua cidade, Jamile, em vez de ser professora, foi fazer teatro. Atuou em algumas peças locais até decidir se mudar para a capital, entre o fim dos anos 1940 e o início dos 1950. Tinha, então, 30 anos de idade, e foi morar em um apartamento alugado na Rua Aurora, no entorno da Praça da República. Essa região era “o” point daquela época. Ali pertinho, na Avenida São João, funcionava o Conservatório Dramático e Musical, onde Jamile foi estudar, enquanto se preparava para um concurso público na prefeitura (no qual, aliás, passou; foi funcionária da Secretaria de Obras por longos anos).

O conceituado Conservatório mantinha, nessa época, um curso diferente de seus já conhecidos programas de música erudita. Tratava-se de uma série de aulas sobre folclore, impulsionadas e inspiradas pelas atividades que um antigo aluno e professor, certo Mário de Andrade, desenvolvera anos antes. Esse poeta, escritor, musicólogo e tantas coisas mais, personagem tão intrigante da história paulistana, havia dirigido o pioneiro Departamento de Cultura da prefeitura entre 1935 e 1938 e colocado o folclore, outro assunto de seu grande interesse, na pauta oficial. Como parte de um de seus mais famosos projetos no Departamento, uma expedição de estudiosos foi enviada ao Norte e ao Nordeste do país para coletar e registrar manifestações populares relacionadas à música e à dança (o riquíssimo material que resultou dessas viagens, parte da Missão de Pesquisas Folclóricas, integra hoje o acervo do Centro Cultural São Paulo).

Em paralelo às atividades no Departamento, Mário ministrava aulas de música no Conservatório, e, ao que parece, também de folclore nacional. Depois de sua morte, em 1945, ele foi substituído na instituição por seu antigo assistente, um moço chamado Rossini Tavares de Lima, que criou no mesmo local, já no ano seguinte, um grupo de estudos batizado de Centro de Pesquisas Folclóricas Mário de Andrade (que, em 48, se tornaria o embrião do atual Museu do Folclore Rossini Tavares de Lima, instalado no Pavilhão das Culturas do Parque do Ibirapuera, mas há anos fechado para o público). A recém-chegada Jamile, uma vez no Conservatório, se encantou pelo folclore e também por Rossini, de quem foi companheira por mais de dez anos. Isso, no entanto, já é outra história…

Na época em que Jamile se transferiu para a capital, os folcloristas estavam no auge do “movimento” de pesquisa e estudo sobre as tradições culturais brasileiras. Era, afinal, um momento propício: a propaganda do progresso, a nascente cultura de massa e o inabalável desenvolvimento industrial e tecnológico, sobretudo na São Paulo à beira do IV Centenário, pareciam, aos olhos deles, colocar em risco tudo o que estava ligado ao passado simplório e artesanal da cidade, do estado, do país. Não por acaso foram criadas entre os anos 1940 e 1950 inúmeras associações relacionadas ao estudo e à divulgação das manifestações da “cultura espontânea”, como definia Rossini, a exemplo da Comissão Nacional do Folclore e suas sedes regionais e da Campanha de Defesa do Folclore, idealizada pelo então Ministério da Educação, Ciência e Cultura.

Jamile foi membro ativo de todas essas organizações e participou a fundo de toda a exaltação folclórica de seu tempo. Focou seus estudos na parte mais saborosa das tradições que, para ela, estavam prestes a se perder – assim como, ao mesmo tempo, o fazia, de sua casa potiguar, o também folclorista Luís da Câmara Cascudo, que lançaria seu célebre História da Alimentação no Brasil na mesma década de Cozinha Tradicional Paulista, 1960. De forma implícita, Jamile e Cascudo consideravam que as receitas tradicionais, aquelas que antigamente se transmitiam de geração em geração, seriam, como as cantigas e os contos, parte de uma cultura popular que corria risco de extinção. Na introdução de seu livro, que inclui mais de 200 receitas, Jamile já avisa que:

“[…] necessário que se diga, porém, que muitas dessas receitas já vêm sendo esquecidas, apenas sobrevivendo em algumas mesas de antigas famílias paulistas. E a razão desse esquecimento se dá pela influência das cozinhas italiana, alemã, francesa, libanesa, norte-americana e outras, como também pela transformação socioeconômica da vida do paulista, quando obstáculos de várias procedências nos obrigam a refeições mais rápidas e baratas. […] Para terminar, desejamos declarar que a nossa finalidade principal, com esta publicação, foi concorrer para a divulgação e revivescência da culinária do Estado de São Paulo.”

Há muito o que contar e refletir sobre Jamile e suas pesquisas sobre o esquecimento da cozinha tradicional – essencialmente caipira – em São Paulo. Por ora, me detenho em algo que acho curioso dessa história toda: entre as manifestações que se dizem folclóricas, porque não se sabe onde, quando ou como tiveram origem e se espalharam por aí, as receitas talvez estejam entre as de mais fácil “revivescência”. Elas implicam fórmulas que, se colocadas em prática em qualquer tempo, ainda que de forma muito adaptada, podem trazer ao hoje algum cheiro e algum gosto de um ontem distante…

Aproveito, então, para terminar este texto reproduzindo a receita que Jamile utilizou para preparar a canelinha que deve ter empolgado os convidados no lançamento de seu livro, naquela noite de agosto de 1963. Fã de cachaça como sou, preparei a receita em casa e, por alguns dias, quando abria a geladeira, tentava imaginar o que Jamile sentiu quando arrancou a garrafa de lá para levá-la ao evento de lançamento. Não senti nada. Mas a bebida, que ela considerava simbólica das festas juninas de antigamente, fica mesmo boa: enche a garganta, quase como um licor; deixa um quentinho agradável no fim, mesmo sendo servida fria.

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* Agradeço ao sobrinho de Jamile Japur, João Carlos, por apoiar essa pesquisa e contribuir tanto com ela. Todas as fotos da pesquisadora, reproduzidas neste site, são de seu acervo pessoal. 

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