“Sanduíche de grande montagem” para um (des)encontro crônico

“Tudo, entre nós, havia que continuar sendo casual. Não tínhamos nada que marcar encontro das cinco-e-quinze, no tal bar, tido e havido como discreto. Resultado: aquele sem jeito, aquela falta de ar, aquela vontade de voltar para casa, que nós, apesar de lúcidos e afins, não conseguíamos explicar. Mas, que foi engraçado, foi. Primeiro, para termos direito a uma mesa, o garção exigiu que fizéssemos uma despesa qualquer. Dinheiro havia. O que nos faltava era apetência. Deixamos a cargo do garção o preço que haveríamos de pagar pelo local e pela discrição do nosso rendez-vous. Podia ter estourado um Moet & Chandon, mas, homem cauto, olhando-me nas alpargatas, trouxe-nos uma coca-cola-tamanho-família e um sanduíche de grande montagem. Eu, como sempre brilhante naquilo que irei dizer e em tudo que poderia ser dito, na hora de falar, não disse coisa nenhuma. Julguei que se tratasse de uma simples burrice inicial, que passaria tão logo nos habituássemos à novidade de estarmos sós. Mas, não. Andou o tempo e nós continuamos naquela conversinha de Alvarenga e Ranchinho, que não vende nem compra coisa alguma.”

(…)

“…na verdade não temos nada que contar um ao outro. Em nosso caso, desgraçadamente, seria chegar, abraçar e deixar sentir. Mas, cadê peito? Continuemos então a viver dos acasos…”

Os excertos desta nota de canapé* fazem parte de um texto chamado “Eram cinco-e-quinze”, sobre um encontro à mesa que só existe no acaso, porque assim, de hora marcada, combinado, programado, simplesmente não consegue ser. Foi escrito pelo poeta, cronista e compositor pernambucano Antônio Maria (1921 – 1964) e publicado no dia 25 de novembro de 1959. Faz parte da coletânea O Jornal de Antônio Maria (2 ed., Paz e Terra, 1980), encontrado (por acaso) em um sebo. Chovia, não havia guarda-chuva e a loja estava ali, pronta para não deixar molhar. Se tivesse combinado a visita e encomendado o temporal, o livro talvez não surgisse no meio da poeira.

*demos o nome de Notas de canapé para as citações (sugestões, recortes de livros), que publicamos neste Lembraria, paralelamente à produção das autoras. O termo é emprestado do autor Rubem Alves que assim resolveu chamar e reposicionar o que normalmente entendemos como anotação de rodapé (Variações sobre o prazer, 1 ed., Planeta, 2011). Essas notas nossas e dele são laterais, andam junto. “Rodapé é coisa que fica por baixo, na altura do pé, e é incômodo ficar olhando o tempo todo para baixo. (…).”

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