Quitutes no Hotel do Universo

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Correio Paulistano, 14 de fevereiro de 1859: o primeiro anúncio de sorvete

Já no dia seguinte ao da crítica publicada pelo Gastrônomo, o Correio Paulistano de 12 de julho de 1854 trazia uma carta de defesa ao estabelecimento-alvo da reclamação, o hotel instalado no Pátio do Colégio (conhecido na época como Largo do Palácio, por abrigar a sede administrativa da província). Alguém assinava a réplica com outro sugestivo pseudônimo: “o Justo”. Escondido sob esse apelido estava, provavelmente, o próprio José Narcizo Coelho, proprietário da casa, que deve ter se enraivecido diante das acusações públicas daquele que, para ele, seria um “comilão”, um “invejoso” de marca maior. Dizia ele:

“O gastrônomo, de seu número de ontem, é nimiamente [excessivamente] injusto para com o hotel de sr. Narcizo Coelho, porque não só não se tem dado os fatos alegados na correspondência do tal comilão, como porque ainda mesmo que fossem exatas as asserções que aí aparecem, nem por isso deixava de ser o estabelecimento do Sr. Narcizo um grande melhoramento para esta capital. É inegável que o sr. Narcizo Coelho tem direito aos louvores dos habitantes desta cidade pelo grande melhoramento e vantagem que lhes oferecem com o estabelecimento em questão. […] Muito pequena alma tem esse quidam [ignorante] que não pode conter uma dentada feita com os rombos dentes do invejoso, que só merece desprezo. Sou, Sr. Redator, seu assinante. O Justo”*

Pendengas à parte, o fato é que o Justo tinha lá sua razão. O hotel do Largo do Palácio, assim como outros que começavam a ser inaugurados nessa época, trouxe mesmo importantes novidades a São Paulo. Diferentemente das antigas e malvistas hospedarias, que atendiam apenas a viajantes e tropeiros, o hotel de Narcizo Coelho e os de seus concorrentes passavam a mirar um novo tipo de público – os próprios moradores da cidade –, ao oferecer uma modernidade que já tentavam copiar da Europa: a possibilidade de comer e beber fora de casa, e não mais por fome; por prazer.

Fundado por volta de 1840 pelo possivelmente paulista José Narcizo Coelho, o local havia se apropriado desse termo ainda pouco usado, “hotel”, que, já para parte dos paulistanos, ou ao menos para os que se consideravam gastrônomos, exigia qualidades até então inéditas. “Além de quê, um estabelecimento que pretende o nome de – Hotel – jamais deve dar destas respostas”, dizia o Gastrônomo em sua pioneira crítica de 1854. Asseio e prontidão no serviço e no atendimento começavam a ser palavras de ordem, a aparecer até mesmo nos anúncios de estabelecimentos desse tipo.

Embora autodenominada “hotel”, a casa do Largo do Palácio parecia carecer não de asseio, mas da “prontidão” na oferta de receitas e ingredientes; sofria, afinal, com o ainda irregular abastecimento de ingredientes nos armazéns da época. Vez ou outra, de fato faltavam pães e manteiga na despensa, mas, sem poder fazer muito a respeito, o senhor Narcizo Coelho nem esquentava. Dormia tranquilo porque estava seguro, e a réplica no jornal confirma isso, do quão importante era a simples existência de seu estabelecimento em uma cidade pequena, de pouco mais de vinte mil habitantes, como a São Paulo de meados do século XIX.

Muitas melhorias no hotel do Largo do Palácio, entretanto, estavam por vir. Em 1855, o local ganhou nome oficial, Hotel do Universo, e passou a ser comandado por uma companhia firmada entre o fundador e alguns dos ainda poucos imigrantes franceses que vinham se estabelecendo na cidade desde a década de 1820, mais ou menos. A sociedade, presidida pelo boa-praça João Lefebre, passaria por altos e baixos, que culminariam com a saída definitiva de Narcizo Coelho do negócio. Logo, o francês assumiria de vez o comando, ao lado da mulher, a paulista Maria Gomes. Seria tão associado ao lugar que, em breve, o Universo se tornaria conhecido apenas como Hotel Lefebre.

Não eram poucos, entre a década de 1850 e o início da seguinte, os estabelecimentos comerciais administrados por imigrantes franceses. Ter um deles no comando de um hotel e, sobretudo, no de sua cozinha simbolizava uma qualidade e tanto, já que começava nesses tempos a mudança de costumes em direção ao ideal cosmopolita, a um modelo muito espelhado na Europa e em sua capital cultural, Paris. Seguindo a onda, o francês Lefebre deu início à trajetória de hoteleiro realçando as virtudes culinárias da casa.

Contratou um “peritíssimo” cozinheiro, francês é claro, e passou a publicar no jornal Correio Paulistano anúncios de pastéis, tortas e empadas, como o que mostro logo abaixo, de 17 de abril de 1856. (As empadas paulistas eram extremamente apreciadas nessa época; em breve, devo falar mais sobre elas.) No salão de refeições do casarão de fachada amarela, com janelas no andar superior que davam vista para o Beco do Pinto (ainda existente, preservado ao lado da atual Casa da Imagem), ele servia a hóspedes e locais o almoço por volta das 9 ou 10 da manhã, o jantar por volta das 2 da tarde, e a ceia, mais à noitinha, além de receber encomendas de quitutes.

Correio, 14 de abril de 1856: empadinhas no hotel

Na única e coletiva mesa da sala, a chamada mesa redonda, os fregueses – em sua maioria, homens – se sentavam em cadeiras de palhinha para provar ostras em lata, pastel de carne, peixe assado, torta de pescado ou de carne suína e também feijão-preto, preparado sob a supervisão da paulista dona Maria. Café e chá finalizavam a refeição, assim como o chocolate quente, bebida que andava fazendo sucesso na cidade.

Certo dia de fevereiro, em 1859, Lefebre mandou publicar no Correio Paulistano aquele que seria o primeiro anúncio de sorvete do jornal: às 10 da manhã, pontualmente, a maior novidade doce do século XIX estaria, orgulhosamente, à disposição no hotel. Quem quisesse prová-lo, no entanto, não poderia se atrasar, sob o risco de o gelo, ainda trazido de navio e armazenado em depósitos subterrâneos, simplesmente derreter.

Lefebre morreu aos 56 anos, em 1866, de uma mal explicada “moléstia interna”. Dona Maria, a viúva, tentou manter o hotel de pé, mas, quatro anos depois, desistiu dele. As cadeiras de palhinha, o aparelho de jantar completo e os demais pertences da casa foram a leilão, e teve fim a longa trajetória do antigo hotel do Largo do Palácio. O Gastrônomo, se ainda vivo e ainda em São Paulo, não deve ter se lamentado muito. Nesse momento, 1870, ele já tinha muitas outras salas de refeição de hotel, inclusive já intituladas “restaurantes”, para se esbaldar – e, quem sabe, criticar à vontade.

 

*O texto extraído do jornal Correio Paulistano, de 12 de julho de 1854, teve sua ortografia adaptada à atual.

 

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