Menos açúcar, menos afeto

Ilustração da artista plástica Teresa D'Amico para o livro Cozinha Tradicional Paulista, de Jamile Japur
Cozinha imaginária: a do passado é sempre mais gostosa… Ilustração da artista plástica Tereza D’Amico para o livro Cozinha Tradicional Paulista, de Jamile Japur

Não, não sou confeiteira, nem vou escrever, ao menos não agora, sobre receitas de doce. O açúcar e o afeto a que me refiro no título são aqueles que parecem ter se tornado ingredientes essenciais às lembranças de comida. Tenho a impressão, aliás, de que essa memória açucarada e afetiva está por toda parte, embutida nos eletrodomésticos de estilo retrô, nos livros e nos blogs de receitas de avó, nos discursos-nostalgia à la madeleines de Proust, na estética de certos restaurantes, na razão de ser de grande parte das confeitarias, dos programas de culinária da TV, dos canais do YouTube…

Até parece que há muito do passado na cozinha do presente, mas não: na maioria das vezes, ele está lá apenas para decorar mesmo. E tudo bem (“♥!”, dizem). Ainda assim, tenho a sensação de que a memória do comer e do cozinhar, ao ser polvilhada com tanto açúcar (às vezes, adoçante), está prestes a ficar um tanto enjoativa, a perder o sabor. Seu “recheio”, o conteúdo de histórias e porquês que a sustenta, já anda passando despercebido, encoberto pelas mil camadas desse modismo. Ao que tudo indica, a “gourmetização” atingiu em cheio também a memória.

Talvez isso tenha acontecido porque investir no marketing da lembrança para vender qualquer coisa relacionada à comida seja uma técnica praticamente infalível. Essas recordações são, na essência, poderosos ativadores da memória mais doce e familiar de cada um: ao serem narradas, têm o poder de cutucar o arquivo pessoal de qualquer interlocutor, de qualquer procedência. Não é preciso ter gostos ou origens semelhantes para se identificar com essas lembranças; elas nos tocam de um jeito quase automático, nos levam de imediato aos sabores geralmente felizes de nosso próprio passado.

A fase de mudanças constantes que vivenciamos hoje certamente contribui com essa simpatia instantânea pelas lembranças de comida. O passado, seja lá de que forma, tem nos inspirado talvez como nunca porque, à distância, parece muito melhor do que o presente. Ele nos lembra de que já não temos o tempo nem a tradição de antes. No hipotético “bons tempos aqueles”, o dia a dia continua mais calmo e mais gostoso, regido pela imutabilidade das regras transmitidas de geração a geração, pela paciência para escrever cadernos de receitas, pela pureza do leite trazido à porta toda manhã. Não por acaso, a casa da avó (ou da bisavó) se apresenta ao estressado hoje como o refúgio da tranquilidade e do conforto – da slow e da comfort food

Conforme a impossibilidade de lidar com o tempo e a artificialidade das coisas e das relações se intensificam, mais o antigamente se torna atraente. É como se, em meio à turbulência desses anos 2010, nos déssemos conta de que voltar ao antes talvez seja uma boa ideia. Voltar e, diga-se, aproveitar a viagem para “coletar” receitas e preparos e revivê-los, “salvá-los” do esquecimento. Vem mais ou menos daí o outro gume, mais afiado e preciso, da tal banalização da memória: o da volta às raízes e às tradições, da valorização de ingredientes e técnicas regionais, da recuperação do orgulho de artesão que, um dia, baseou o cotidiano da cozinha.

Acho curioso como as lembranças de comida afloram esse sentimento dúbio, de pertencimento e conforto de um lado, de perda e morte de outro. Ao mesmo tempo que nos transportam para o aconchego da cozinha de avó, nos trazem o desconsolo de lidar com a sensação boa de um passado que, apesar de poder ser reconstruído e reproduzido, não volta – eis aí, inclusive, mais um possível fenômeno para sacramentar a modinha da memória: o da saudade coletiva. Não sei até que ponto, no entanto, temos consciência de que esperamos que esse passado seja salvo e nos salve, sem nos darmos conta de que, provavelmente, ele tenha sido criado por nós mesmos…

Às vezes, penso que gostamos de fato não do passado ou da memória, mas do ato de lembrar. Gostamos ainda mais de compartilhar lembranças, incrementando um tempero aqui, neutralizando um amargor ali, balanceando a acidez, adicionando imaginação. Inventando histórias, afinal. Estamos quase sempre interessados em conhecer a “verdadeira” receita, da mesma forma que buscamos a nossa verdadeira origem. É uma forma, afinal, de completar nossa história, para que, além do meio e do incontornável fim, ela possa ter um começo, ainda que imaginário.

Dito (tudo) isso, chego finalmente ao propósito que me fez inaugurar, ao lado da amiga Vivi Zandonadi, este Lembraria. Com menos açúcar, ciente das peças pregadas pelas lembranças e, mesmo assim, inevitavelmente tentada pelo adocicado do passado, pretendo reunir aqui recordações sobre comida que contam a história não minha, mas do lugar em que vivo, São Paulo. São lembranças que foram parar em pesquisas folclóricas, em livros de receitas, em antiquíssimas notícias de jornal, em exposições de museu, em cenas de novela… Viraram patrimônio, inconsciente ou construído, conhecido ou ignorado. E são também, ao mesmo tempo, lembranças que por algum motivo, em algum momento foram parar sob a confusa cobertura de modismos e discursos inventados que reveste o bololô de nossa memória coletiva…

Espero, enfim, que o leitor também goste de lembrar. E, principalmente, de criar novas lembranças.

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