Dicas gastronômicas de um tataravô paulistano

Relógio do século XIX (Foto do banco de imagens Pexels)
O despertar de um gastrônomo: inconformado com a falta de manteiga no Hotel, o moço acostumado a sair para comer, na São Paulo do século XIX, decide escrever para o jornal e reclamar publicamente

Depois de tropeçar umas quinze vezes nas pedras da Rua Direita, seguindo as sombras criadas pela lua na escuridão, desviando dos sapos que a essas horas estavam por toda parte, ele finalmente chegou em casa. Abriu a porta, que rangeu quase acordando seus amigos de quarto, pendurou o chapéu de Braga no cabideiro e seguiu para a cama. Ainda estava com fome, apesar de ter acabado de cear na sala de refeições do conhecido hotel do Pátio do Colégio, ali perto. Mesmo assim, achou melhor esfriar a cabeça, e dormiu.

Acordou com o cantar dos galos do quintal vizinho – e com a barulhenta chegada dos colegas de república, estudantes de Direito do Largo de São Francisco como ele, que haviam estendido a noite em uma serenata regada a vinho à beira do Rio Tietê. Ainda perturbado, sentou-se à escrivaninha antes mesmo do café da manhã. Continuava indignado com a falta de cuidado do senhor Narcizo Coelho, dono do hotel em que, por algumas vezes, incluindo a noite passada, havia feito uma refeição aquém do desejado. Estava engasgado: tinha gastado uma boa soma naquela ceia, merecia mais.

Inspirado pelos argumentos que se achava treinando para as constantes sabatinas exigidas pelo curso, molhou a pena e rabiscou uma reclamação. A ideia era mandá-la publicar no recém-fundado jornal Correio Paulistano, primeiro diário da cidade. Escreveu assim:

“Sr. Redator, Vou por meio desta correspondência chamar a atenção do sr. J. Narcizo Coelho, para um fato que se tem repetido na sua casa do largo do Colégio, denominada – Hotel. Aí tem comparecido diversas vezes algumas pessoas, e além de não encontrarem muita cousa que pedem, e que por modo algum devia deixar de haver com abundância, não tem sido servidos com prontidão.
Ultimamente, porém, por três ou quatro vezes, não tem havido manteiga! Manteiga!… Mais um passo, e não haverá carne, pão etc. Faltas destas afugentam os fregueses de sua casa, sr. Narcizo, e vmc. [vossa mercê] é o único que perde com isto. Além de quê, um estabelecimento que pretende o nome de – Hotel – jamais deve dar destas respostas.
Reflita, pois, sr. Narcizo, nestas cousas, e trate de superá-las, do contrário desde já iremos entoando o de profundis ao seu estabelecimento.”

Antes de assinar, pensou. Seria melhor não revelar o próprio nome: evitaria, assim, pendengas com o senhor Narcizo, que, apesar de tudo, o conhecia de outros tantos carnavais… Decidiu, então, fechar sua correspondência com um termo que corria por aí e parecia descrever com perfeição um moço como ele, antenado com uma novidade de seu tempo: comer fora de casa, e por prazer. Voltou a pena ao papel e, com segurança, assinou:

“O Gastrônomo.”

A correspondência do Gastrônomo foi publicada exatamente dessa forma no jornal Correio Paulistano do dia 11 de julho de 1854. O restante da história, no entanto, não passa de invenção, e das mais óbvias, ainda que baseada em referências da época. Desde que encontrei esse texto, durante uma pesquisa em jornais de meados do século XIX, divago sobre quem teria sido essa pessoa que se pretendia gastrônomo, e dos mais metidos, em uma ainda pouco movimentada São Paulo – que talvez, no fim das contas, não fosse tão pouco movimentada assim.

Penso, então, que esse rabugento paulistano pode ter sido um dos próprios redatores do jornal, a exemplo de Pedro Taques Almeida Alvim, um figurão de nome tradicional e conhecido apreciador das “ceiatas” oitocentistas, de quem ainda falarei em algum momento no Lembraria. O moço bom de garfo e de escrita também pode ter sido, quem sabe, um dos estudantes ou bacharéis da Academia de Direito, atual faculdade da Universidade de São Paulo, que havia sido fundada em 1828. Desde sua instalação, uma enxurrada de jovens de outras províncias não parava de chegar à cidade para estudar, farrear, comer e beber em seus escassos estabelecimentos (ou nas improvisadas serenatas à beira do Tietê mesmo, em um terreno então vazio próximo à atual Ponte das Bandeiras).

Palpites à parte, jamais saberei quem, de fato, foi o Gastrônomo, o antepassado talvez mais longínquo dos críticos de restaurantes dos jornais paulistanos. O local que ele “avalia” em seu texto de 1854, ao contrário, foi bem fácil de identificar. Trata-se do Hotel do Largo do Palácio, posteriormente Hotel do Universo e Hotel Lefebre, que existiu mais ou menos entre 1840 e 1870. Assim como esse estabelecimento inicialmente comandado por Narcizo Coelho, as hospedagens da primeira metade do século XIX serviam como incubadoras dos primeiros “restaurantes” da cidade (entre aspas porque, muitas vezes, esses locais nem ostentavam esses nomes, tampouco se pareciam com a ideia que deles fazemos hoje).

As velhas páginas do Correio Paulistano, e de outros jornais da época, contam por meio de anúncios, cartas e colunas muitas histórias sobre esses locais e também sobre os “cafés” e, claro, as “padarias” que começavam a proliferar nessa época. Guiada por esses e outros registros, inspirada pelo Gastrônomo mas não restrita ao século XIX, vou publicar aqui, sempre às sextas, algumas dicas sobre restaurantes, cafés, padarias e afins que só poderão ser visitados na imaginação. São, afinal, estabelecimentos que encerraram atividade há muito tempo e que, em maioria, perderam seus endereços para prédios de concreto.

Vamos por aí, quase sempre pelas ruas do hoje tão abandonado Centro de São Paulo, conhecer casas que já entretiveram paulistanos de outros tempos. Começamos, na próxima sexta, no Pátio de Colégio, onde um casarão amarelo perto do sobrevivente Beco do Pinto abrigou o Hotel do Largo do Palácio, o estabelecimento-alvo da reclamação pública do Gastrônomo. Seu Narcizo Coelho, de barba, chapéu de Braga (era a moda) e paletó bem-posto, está lá, apoiado ao batente da porta, esperando o próximo cliente…

3 comentários Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s