A tia do Yakult lembra São Paulo

Para Sara, a menina que tomava sopa de carne, batata e macarrãozinho para curar a garganta, os gostos de infância incluem os gostos das comidas vendidas pelos ambulantes nas ruas. Muitos cheiros e sons da cidade costumam, de fato, encher a memória daquela sensação gostosa da rotina que passou e que, em alguns casos, ainda se faz presente. Trazem-nos, especialmente quando estamos distantes do nosso lugar ou daquele tempo, a pontada de saudade de casa que a língua inglesa tão mais profundamente define como homesickness.

Assim como Sara, também me fisgam as lembranças do carro de milho-verde, da pamonha “puro creme do milho” e da carrocinha de “Yakulteeee!”, esta mais difícil de encontrar hoje. Quem vendia as garrafinhas de leite fermentado com lactobacilos vivos perto da casa de Sara era a dona Glória; da minha, nos idos dos anos 1980, era a tia Maria, como tantas outras tias que devem ter empurrado esse mesmo carrinho por aí.

De origem japonesa, o Yakult, no Brasil, começou a ser vendido em São Paulo, em 1966. Três anos depois, passou a ser produzido em uma fábrica própria, instalada em São Bernardo do Campo. Dessa época datam várias notícias nos jornais sobre o sucesso da bebida, ainda não focada no público infantil, mas na promessa de longevidade. Aos quase 70 anos de idade, Minoru Shirota (1899-1982), o criador da fórmula especial do leitinho fermentado nos anos 1930, era o maior garoto-propaganda da marca: viajava pelo mundo, inclusive pelo Brasil, divulgando seu produto e ministrando palestras sobre como sua invenção deixava as pessoas mais saudáveis, sobre como as propriedades da bebida atrasavam o envelhecimento.

No Japão, desde a década de 1960, eram as “Yakult ladies” que se encarregavam de levar os frascos para as casas das pessoas, em carrinhos paramentados. Eram, de certo modo, algo como as “Avon ladies”, chamando clientes de dentro de seus lares para comprar produtos que traziam beleza e felicidade. No Brasil, elas atendiam como as “tias do Yakult”, e logo passaram a ser atração não para as mulheres ou “donas de casa”, mas para as crianças. Logo, até mesmo as propagandas do fermentado nos jornais mudaram: deixaram de lado o mote de fonte da juventude e passaram a se dirigir a meninos e meninas, que ficariam mais fortes depois de tomá-lo.

“Yakult é um produto natural que protege a saúde. Com os frasquinhos de Yakult, seu filho faz trenzinhos, telefones, foguetes. Com Yakult todo mundo fica forte brincando”, dizia um anúncio de 1979.

Hoje, o Yakult, do jeitinho que sempre foi, está nas prateleiras do supermercado e apoia suas propagandas na tradição, no fato de ter passado do dia a dia dos avós para o do netinhos. As tias, no entanto, parecem não ser mais tão frequentes nas ruas da cidade (embora ainda seja possível encontrá-las por aí vez ou outra, empurrando um carrinho todo modernoso). É uma pena. Por mais que os netinhos de hoje ainda tomem Yakult, ele já não deve ter o gosto da constante expectativa de aguardar a passagem da tia Glória ou Maria na calçada de casa. Yakulteeee!

 

 

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