A sopa de Sara

Impossível: aquilo que não pode ser, existir ou acontecer de novo; o que é difícil demais de fazer ou conseguir outra vez.
A comida impossível de alcançar, mas que gostamos de procurar.

A sopa de Sara: uma comida impossível. Foto do banco de imagens Pexels
A sopa de Sara: o caldo salgadinho e quente arrastava goela abaixo os sapos engolidos… Visitar um sabor antigo é uma viagem impossível?

Sara considera um tipo de feitiçaria a sopa de carne, batata e macarrãozinho que sua mãe fazia quando ela era criança e sofria com frequência de garganta em fogo. Depois, não mais. O caldo salgadinho e quente descia arrastando goela baixo os primeiros sapos engolidos. Era tudo meio mágico. Havia a doação de quem fez, o sabor e aquela transgressão de almoçar ou jantar às quatro da tarde, quando o remedinho fazia efeito derrubando a febre, aliviando a dor e abrindo o apetite. O melhor era faltar da escola. Sentadinha feito gato, pernas dobradas no sofá, sabia que essa vesperal idílica (televisão liberada) sofreria apenas uma leve e esperada interrupção, quando a mão macia e fria de mamãe viesse conferir a temperatura de sua testa. Recebia o carinho, quase estremecia, e ajeitava o cobertor. Às vezes adormecia nos braços do ibuprofeno. Feliz.

A menina vivia em estado de profundo alívio nas horas livres, longe da escola, mesmo quando não estivesse quente por dentro, com as bochechas vermelhas e os olhos brilhantes e ardidos. Longe dos “outros”, não precisava se encaixar nem ser a outra do outro. Inventava as próprias histórias e realizava longas entrevistas de auditório ao vivo na frente do espelho ou sentada no vaso sanitário até seu pé dormir.

Da rua vinham alguns chamados. Um garoto queria jogar trilha, uma garota batia palma no portão e perguntava se tinha “coisa para dar”. Sara ia para fora levando bonecas, um pouco de comida. Fruta, biscoito, bolo. O tabuleiro de damas embaixo do braço. Passava também a caminhonete dos produtos de limpeza. Água de lavadeira, detergente, desinfetante. Mangueiras coloridas despejando os líquidos nas garrafas. Do vitrô da sala, ela observava os vizinhos na fila. “Olha eu aqui de novo, Juarez! Lá em casa tem alguém bebendo todo o amaciante”; “Deixa a menina da Jandira passar na frente, gente…” A rua inteira achava que o tempo daquela moça era especial e todos os meninos queriam falar com ela.

Só que os dois ambulantes preferidos (da Sara) eram a dona Glória e o senhor carro de milho. Dona Glória era uma morena enorme e dona dos peitos e dos lábios vermelhos mais bonitos do mundo. Seus cabelos estavam sempre frescos e perfumados. Dava muita vontade de abraçar e de ficar olhando. Ela vendia Yakuuulteee!, e ao seu redor se amontoava uma molecada sedenta, suada e sujinha de rua. Menos Sara. A mãe não deixava brincar fora do portão. Ela pegava a encomenda por entre as grades cor de laranja que nunca foram pintadas de verdade. A “assinatura” garantia seis garrafinhas às segundas e mais seis às sextas. Quarta era o dia de a Variant branca trazer pamonha fresquinha, pamonha caseira. O puro creme do milho-verde. Pamonhas e curaus às vezes apareciam na pia depois de uma de suas passagens. Dava a impressão de que o automóvel transitava automaticamente, sem motorista. E falava. Uma voz sem rosto. Ela adorava essa não imagem.

***

Sara está com 37 anos. Da menina que encardia os pés descalços no chão vermelho do quintal, mantém os óculos de aro escuros. Ainda transpira sob os olhos e sobre os lábios em situações de arrepio – enquanto muita gente apresenta os efeitos triviais (frio na barriga, pelos em pé, a corrente de formigamento das mãos para os braços), em caso de susto e medo a água mina em seu rosto feito milagre da santinha no programa de televisão. Os cabelos cor de melaço de cana, que a mãe não deixava lavar todo dia para não pegar friagem, continuam iguais e em constante revoada. Desde que saiu da casa da dona Odília, porém, ela lava a cabeça toda noite e dorme com ela molhada. Fios brancos dão um aspecto marmorizado. É uma novidade, e ela não quer falar disso agora.

Sara separou-se do pai de sua filha. O amor acabou no dia em que pararam de dividir a sobremesa. Simplesmente perdeu a graça. Olhou para ele e viu que, se não sentia desejo de pedir mais uma colher para quebrar o pudim, não havia mais nada ali. Agora está secretamente apaixonada pelo vizinho do 1003. Ninguém nunca vai saber, só a gente. Ela torce para o vizinho um dia chamá-la para jantar. Um encontro que nunca vai acontecer, porque o sujeito vai morrer ou fugir de medo. O que ela quer é aproveitar as vésperas. O melhor é esperar, diz.

Parece que ele é casado, ainda que sua mulher jamais tenha sido vista em sete anos de condomínio. Dizem que a tal mulher saiu e não voltou e vai ver um bruxo a transformou em árvore, porque o vizinho do 1003 cultiva no Instagram o maior álbum de ipês, primaveras e o que mais encontrar pelo caminho – desde que tenha raiz e não seja uma pessoa. Sara nunca curtiu suas fotos, mas faz visitas diárias sempre com medo de perceber alguma mudança. Qualquer sinal de que a vida continua.

***

Das nove da manhã às seis da tarde, em casa, Sara trabalha. Ela escreve coisas que não deixa ninguém ler e, para fazer comidas gostosas, pagar o aluguel, a escola da Maria e também a fim de comprar livros e ir ao cinema no meio da tarde, edita tristes textos tortos sobre assuntos que lhe são alheios (ou quase). Acabou de fechar uma nota sobre a saúde das finanças pessoais das famílias brasileiras. Resultado: azia. Suas próprias contas prestes a entrar em estágio terminal. Fecha o computador e passa no quarto. A menina dorme.

Maria nunca tem dor de garganta. Sara queria que ela soubesse como era gostoso o caldinho de carne que a avó preparava. Está convencida de que, por causa dele, é uma pessoa melhor. E deseja oferecer para sua filha em colheradas generosas a sensação de conforto que ela experimentava. A certeza de que tudo está bem percorre a língua, o céu da boca, a garganta. É por isso que há meses, ao menos uma vez por semana, nas noites em que a guria dorme na casa do pai, a mãe passa o tempo na cozinha misturando coisas na tentativa de alcançar aquele gosto.

Nunca consegue. Levou a questão para a análise, a poucos minutos de acabar. Verena, a psicanalista, a deixou profundamente irritada. Acompanhando-a até a porta, disse que talvez esteja ótima a receita. No entanto, “como você não é mais a mesma menina do sofá, perceber o sabor pode ser impossível. Essa memória de comida é a memória do impossível, um lugar ao qual só dá para voltar na lembrança. E a lembrança é o que a gente acha que se lembra, misturada muitas vezes com o que a gente queria que fosse. Maria é diferente de você, Sara, então sua busca pode ser mais prazerosa e interessante se você deixar aparecer um outro gosto, um caldo seu. O que acha? Me conta depois como ficou”. Beijo. Tchau.

Do consultório, ela voltou direto para casa, de cara amarrada. Nas noites de consulta normalmente vai comer um sanduíche e tomar uma cerveja sozinha na lanchonete. Naquela, não. Botou sobre a pia alho, cebola, batata, tomilho, salsão, cenoura. Tomate. Acém em cubos. Um pedaço de osso. Páprica doce. Cúrcuma. Sal. Pimenta. Pôs um disco de Dusty Springfield na vitrola, abriu uma garrafa de espumante que ganhou de uma cliente. Distribuiu os ingredientes pelas panelas, refogou, ferveu, bebeu, botou para reduzir. Em algumas horas, arrumou dois armários, leu um livro, jogou fora uns escritos – quem vai se interessar por um dia na vida de uma mulher comum? Até que finalmente resolveu mexer nas gavetas do criado-mudo. A essa altura o apartamento estava inteiramente perfumado. E parecia bom.

Já era madrugada quando encontrou um envelope amarelo-gema e dentro uma folha pautada meio escurecida. A letra de Odília. A receita da sopa. Imediatamente o rosto de Sara começou a ficar molhado (sob os olhos, sobre os lábios). Refogue os cubinhos de carne e reserve. Na mesma panela, sem lavar, despeje dois litros de água e desmanche nela um tablete de caldo de carne. Deixe ferver, cozinhe o macarrão em fogo alto para a água reduzir. Três minutos antes de desligar, junte as batatas e… Hum? Caldo de carne industrializado? Mãe? Ela então se lembrou: comia esses cubinhos puros. Adorava. Viciante. Tempo bom, pensou. Odília ficava enfurecida ao deparar com eles abertos e faltando pedaços. Os dentinhos da Sara deixavam pistas. A gente era feliz e não sabia que o cubinho era a mentira dos caldos. Cheios de sódio. A mãe morreu sem querer saber, porque em uma das últimas discussões sobre o risoto de parmesão ela sugeriu usar o caldo pronto, que era mais prático, e Sara virou uma fera. Bateu a porta e, aborrecida, Odília nunca mais tocou no assunto. Fez outra comida naquele domingo.

No almoço de quinta, clima de outono, Maria comeu e repetiu. Sopa de capelete em caldo dourado, vigoroso, cristalino, apurado ao longo da noite de redescobertas de Sara. No fim, virou o prato e bebeu tudo. Mãe, essa foi a melhor sopa que eu já tomei na vida. Ganhou um chocolate de sobremesa.

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